A IVª Internacional como resposta à guerra iminente

A tomada de poder por Hitler, em Janeiro de 1933, levará Trotsky a colocar na ordem do dia a criação de uma nova internacional, não apenas porque a política conduzida na Alemanha pela IIIª Internacional tinha demonstrado o falhanço da burocracia estalinista, mas também porque a vitória dos nazis o levava a pensar que a guerra seria doravante inevitável.

Para Trotsky, a ascensão do fascismo só podia desembocar na guerra, que iria ser ainda mais atroz do que a de 1914, mas esta também abriria possibilidades revolucionárias se o proletariado pudesse dispor de uma direção capaz e a orientar correctamente. É por isto que o primeiro texto teórico que Trotsky redigirá para a nova internacional será uma brochura consagrada à “guerra e a IVª Internacional” que publicará em Junho de 1934 em várias línguas para explicar que a guerra colocaria novas questões de orientação.

Contra o “defensismo nacional”

Evidentemente, Trotsky inscrevia-se na rejeição do “defensismo nacional” que tinha levado as secções da IIª Internacional a solidarizar-se em 1914 com a sua burguesia, entrando nos governos de “União Sagrada”.

Trotsky via renovar-se essa mesma lógica na política de alianças das “democracias” contra os fascismos que os governos de frente popular implantavam com a bênção da IIª e da IIIª Internacionais. Para Trotsky, esta posição apenas poderia conduzir o movimento operário a alinhar-se, a coberto da luta antifascista, com as políticas dos Estados imperialistas britânico e sobretudo francês.

Rejeitando firmemente as políticas de “defesa nacional”, Trotsky considerava que o “derrotismo revolucionário” que tinha estado no coração da política dos bolcheviques durante a Primeira Guerra Mundial, já não era mais uma palavra de ordem adaptada à situação.

A ascensão nos países da periferia das resistências ao colonialismo e ao imperialismo mostrava que os nacionalismos não podiam ser postos todos em pé de igualdade, o que leva Trotsky a apelar ao apoio ao Estado etíope invadido em 1935 pela Itália ou ainda à República chinesa agredida em 1937 pelo Japão. Este mesmo raciocínio levou-o também a opor-se aos que viravam as costas tanto ao governo espanhol quanto aos franquistas: apesar de considerar que o proletariado deveria manter a sua independência de classe, recusando solidarizar-se com a burguesia e portanto entrar no governo republicano, defendia o apoio à luta anti-franquista.

Sobretudo, a questão da URSS complexificava muito os dados. Para Trotsky, era essencial “apoiar incondicionalmente” a União Soviética para que o proletariado não perdesse o benefício da revolução de Outubro.

Contudo, o falhanço da sua política alemã tinha levado Estaline a procurar a aliança franco-britânica, o que conduzia a IIIª Internacional a alinhar-se com um dos principais blocos imperialistas. Estes elementos impunham uma orientação algo complexa, como demonstrará Trotsky quando responde na comissão Dewey, que lhe perguntava o que faria no caso da URSS entrar na guerra aliada com a França contra a Alemanha, que seria preciso desenvolver uma política de sabotagem do esforço de guerra na Alemanha, contentando-se na França com a propaganda da revolução proletária.

Depois do pacto germano-soviético

Estas questões de orientação vão-se tornar ainda mais difíceis quando, apenas quatro semanas depois da fundação da Quarta Internacional a 3 de Setembro de 1938, as “democracias” rompem com Estaline para fecharem com Hitler os acordos de Munique que lhe concediam os Sudetas. Trotsky compreende então que a burocracia estalinista iria procurar a aliança alemã e não ficou surpreendido com o desfecho em Agosto de 1939 do pacto germano-soviético que destabilizará as direcções do movimento operário.

Trotsky compreende também que o colapso das tropas aliadas em Junho de 1940 virava o jogo, sublinhando que a ocupação nazi da Europa continental criava uma situação de opressão que iria necessariamente permitir o desenvolvimento de uma legítima resistência proletária, ao mesmo tempo social e nacional.

A complexidade das contradições que se exprimiam na guerra colocava desta forma evidentes problemas de orientação à nova Internacional assim como a todo o movimento operário. Decapitada pelo assassinato, em Agosto de 1940, de Trotsky, a IVª Internacional teve dificuldade em lidar com esta situação tanto mais que a guerra não permitia mais às suas secções continuar a corresponder-se entre si.

Enquanto foi “meia-noite no século”, ela não esteva assim em condições de dar ao proletariado a direcção revolucionária que teria sido necessária para transformar a guerra imperialista em guerra de classe, segundo a finalidade que Trotsky tinha originalmente proposto à IVª Internacional.

Laurent Ripart

(tradução de Carlos Carujo)

Este artigo faz parte de um conjunto que foi publicado originalmente no Semanário L’Anticapitaliste nº 442 em 13/09/2018 sobre a fundação da Quarta Internacional

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s