Da oposição de esquerda à fundação da Quarta Internacional

A fundação da IVª Internacional não é apenas a criação de uma nova estrutura: é também o desembocar de um processo de luta política de mais de quinze anos, levado a cabo por Trotsky e pela Oposição de Esquerda nos partidos comunistas e na IIIª Internacional (da qual foram expulsos), pela reforma da Internacional fundada no seguimento da revolução de Outubro. Esta luta política abarcou o conjunto da política implantada por Estaline e os seus esbirros, da independência do partido à política agrária da União Soviética.

Em 1993, enquanto Hitler chegava ao poder e Trotsky procurava juntar todos os revolucionários anti-estalinistas, surgiu um esboço de programa para a Oposição de Esquerda, “Onze Pontos” que se iria tornar o esqueleto do “Programa de Transição” publicado cinco anos mais tarde. Onze pontos que resumem as preocupações centrais de Trotsky face aos estalinistas. Um dos pontos mais importantes é seguramente o da “independência do partido proletário, sempre e em quaisquer condições”. Na China, Estaline tinha obrigado os comunistas a dissolver-se no Guomindang, o partido nacionalista dirigido por Tchang Kaï-Chek, travestindo a política de Frente Única enunciada no IVº Congresso da Internacional Comunista. Desta aliança a única coisa que resultou foi o desarmamento dos comunistas face à repressão nacionalista na altura da insurreição de Shanghai em Abril de 1927: apesar do lançamento de uma greve geral e da tomada de poder do principal pulmão económico da China, os comunistas fizeram-se massacrar pelas tropas de Tchang Kaï-Chek que tinham deixado entrar na cidade.

Contra o “socialismo num só país”

Um dos outros pontos centrais da luta contra o estalinismo era a luta pelo “reconhecimento do carácter internacional e pela permanência da revolução proletária, a rejeição da teoria do socialismo num só país”. Com efeito, enquanto que, desde a tomada do Palácio de Inverno, o conjunto do partido bolchevique tinha consciência da necessidade da extensão da revolução à Europa e ao mundo inteiro, o estalinismo, na sua empresa de liquidação da revolução, reviu todos os princípios marxistas enunciando a ideia que era possível instaurar o “socialismo num só país”. Evidentemente, este mito era acompanhado pela ideia de que a Rússia tinha já entrado no socialismo, mito desenvolvido por uma política económica que Trotsky qualificava de “oportunista” de 1923 a 1928, enquanto Estaline apoia os camponeses ricos (koulaks) contra o desenvolvimento da indústria, depois “aventureirista” entre 1928 e 1932 quando a URSS se volta contra os koulaks para caminhar para uma industrialização forçada.

Apesar destas batalhas políticas terem sido travadas primeiro no PC da União Soviética (PCUS) e na IC, Trotsky foi rapidamente excluído delas: a partir de 1927, o “Velho” é excluído do PCUS com a Oposição de Esquerda. Mas isto não impede os oposicionistas de continuar a considerar-se como uma fracção do PCUS e da IC, tendo como fim reformar o partido e a Internacional, para colocar esta de novo ao serviço da revolução.

Contrariamente ao que se possa pensar, não são nem as purgas nem os assassinatos que empurraram a Oposição de Esquerda para a via de uma nova Internacional para a revolução. Toda a fundação de uma nova Internacional suporia que a precedente tivesse sido ultrapassada por uma experiência histórica de forma a que o seu falhanço se torne indiscutível. E quem diz falhanço total do poder, diz necessidade do seu derrube insurrecional.

Falhanço da IIIª Internacional

O falhanço da IIIª Internacional acontecerá em 1933, com a chegada de Hitler ao poder: enquanto o fascismo ganha ascendente na Alemnha, o KDP (Partido Comunista Alemão) vai pura e simplesmente capitular sem batalha. É uma derrota sem combate e os comunistas, sociais-democratas e sindicalistas alemães são levados ao matadouro sob os olhos culpados de Estaline cuja política dita do “terceiro período”, que tratava os partidos sociais-democratas como “sociais-fascistas”, impediu qualquer desenvolvimento de uma frente única contra o fascismo.

A partir daí, é necessário um novo partido da insurreição, mesmo na URSS. Nos países capitalistas, isto supõe a necessidade de fundar novos partidos cuja tarefa será lutar contra o estalinismo, nova forma de reformismo contra-revolucionário. Na URSS contudo, no único Estado operário dos anos 30, se a tarefa é aí também a revolução, ela é diferente pelo seu conteúdo, essencialmente político, sendo dado que a revolução de Outubro tinha já acabada com a propriedade privada dos meios de produção.

Arthur Nicola

(tradução de Carlos Carujo)

Este artigo faz parte de um conjunto que foi publicado originalmente no Semanário L’Anticapitaliste nº 442 em 13/09/2018 sobre a fundação da Quarta Internacional

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s