O medo do outro: vigilância anti-trotskista e trabalho sobre si

O estalinismo fez-se de perseguição política e fez do “trotskista” uma figura de contraste essencial para a sua identidade. Reescrita da história, promoção da delação, implementação de mecanismos de vigilância, exclusão, ódio e medo não foram exclusivos da URSS. Neste texto, Claude Pennetier e Bernard Pudal refletem sobre essas formas de subjetivação.

Num texto publicado em 2006, parte de um obra dedicada aos temas estalinistas e ao modo como o sistema estalinista moldou os indivíduos, Claude Pennetier e Bernard Pudal questionam as utilizações do “trotskismo” como figura de contraste dentro das organizações comunistas na URSS e em França, fazendo do anti-trotskismo um elemento essencial da identidade comunista na sua versão estalinista [1].

Introdução

“Trotsky” e “trotskismo” são palavras recetáculo que condensam uma pluralidade de temas. Se remetem para a história de um dirigente revolucionário, um líder político, grupos múltiplos que se reconhecem no seu “ismo”, assinalam também – e talvez até acima de tudo – a questão do funcionamento do sistema político estalinista. A figura do “trotskista” é um elemento chave do dispositivo de legitimação do poder estalinista. Ela insere-se numa história de múltiplas intrigas cujas facetas são constituídas por outras tantas figuras de contraste suscetíveis de serem combinadas em montagens narrativas diversas. O trotskismo é, portanto, o significante de uma categoria fundamental do entendimento político estalinista: a do traidor conspirador. Para dar conta de uma crença que, em retrospetiva, se revela tão contraditória com a verdade, é preciso tentar restituir o conjunto das racionalidades que está no princípio desta categoria e que é suscetível de explicar os diferentes tipos de apropriação de que ela foi objeto.

Invenção e focalização da vigilância anti-trotskista (1934-1938)

Sendo verdade que desde 1923 o “trotskismo” “surge no léxico estalinista como paradigma de todas as oposições de esquerda no movimento comunista e na URSS” [2], é depois do assassinato de Kirov (1934)[3] e com os processos de Moscovo (1936-1938) que a criminalização do trotskismo abriu caminho às formas mais extremas do ódio anti-trotskista. Duas semanas depois do fim do primeiro processo, a 6 de Setembro de 1936, Estaline, insatisfeito com os impasses do veredito, exprime o seu despeito numa carta a Kaganovitch e a Molotov: “deveria ter sido dito que as discussões sobre a falta de plataforma entre os zinovievistas e os trotskistas são uma mentira da parte desses estupores e uma ilusão dos nossos camaradas. Os estupores tinham uma plataforma. A substância da sua plataforma é a aniquilação do socialismo na URSS e a restauração do capitalismo. […] Deveria ter sido dito, por fim, que o declínio desses estupores até ao estado de guardas brancos e de fascistas decorre logicamente dos seus pecados oposicionistas do passado”[4].

Estaline justifica extensamente esta tese no relatório que apresenta à Assembleia plenária do Comité Central do Partido Comunista da URSS de 3 de Março de 1937, “Para uma formação bolchevique”. Uma secção inteira é consagrada ao “trotskismo dos nossos dias” e cuja tese central é bem conhecida: apoiando-se nas confissões dos processos de 36 e de 37 que revelam os objetivos da conspiração trotskista (restauração do capitalismo, sabotagem do regime, alianças com os fascistas, espionagem), Estaline conclui que “o trotskismo atual não pode continuar a ser designado uma corrente política na classe operária” [5]. Cria então a definição [6] cujo conhecimento e respeito serão o alfa e o beta da avaliação dos quadros e a partir da qual os militantes e quadros serão convidados a glosar até ao infinito sobre a ameaça trotskista:

«o trotskismo dos nossos dias não é uma corrente política na classe operária, mas um bando sem princípios e sem ideologia de sabotadores, de agentes de diversão e de informações, de espiões, de assassinos, um bando de inimigos confessos da classe operária, um bando a soldo dos serviços de espionagem dos Estados estrangeiros».

Esta criminalização é essencial aos intuitos: ela introduz na história da qualificação estalinista do trotskismo um salto qualitativo. Modifica as categorias de perceção e de avaliação do trotskismo, interditando qualquer contenção na caça anti-trotskista:

«o erro dos nossos camaradas do Partido foi não se terem apercebido desta diferença profunda entre o trotskismo de outrora e o trotskismo de hoje».

Na hierarquia dos “criminosos”, os trotskistas distinguem-se dos antigos sabotadores: enquanto estes últimos eram sociológica e politicamente estranhos ao universo comunista, os “sabotadores atuais” são oriundos do mundo comunista:

«a sua força reside no cartão do Partido, na posse do cartão do Partido».

Esta vantagem, que lhes daria acesso aos segredos do partido também os protege já que beneficiam de imunidade (embora relativa) que decorre da honra de ser comunista. Todas estas considerações tendem a desencadear a luta contra os sabotadores de uma “maneira nova”. É neste contexto que foi necessário reescrever a história do bolchevismo e da Revolução de Outubro a fim de transformar o passado trotskista numa história pré-determinante e anunciando a deriva criminal. Foi o objetivo, como se sabe, de A História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS (1938) [7], mas também, em certo sentido, do assassinato de Trotsky como reescrita da história [8].

Não se deve subestimar o desafio deste trabalho de redefinição do trotskismo e de reescrita da sua história: ele conclui o processo de fechamento do partido comunista onde, a partir daí, qualquer desacordo é suscetível de ser interpretado como sintoma de um delito e apenas nesse registo. Esta redefinição vai, por fim, alimentar o conjunto das práticas de vigilância, fazendo da luta anti-trotskista um “teste” ao espírito de partido tanto mais decisivo quanto diz respeito à vigilância dos camaradas, à capacidade de despistar o homem de duas caras, i.e., o traidor que permanece escondido na sombra sob as características atraentes do camarada de partido. Qualquer relação no seio do Partido será, doravante, mediada por uma distância psicológica e política que pode habitar o medo do outro: do “outro” em si, como do “outro” que se pode abrigar, sem o seu conhecimento, num “camarada”. Sob a fraternidade do partido, este mecanismo introduz-nos à “solidão” dos militantes e, sobretudo, dos quadros permanentes, solidões que eles poderão por vezes medir toda a extensão no momento de medidas disciplinares ou numa repressão sem lógica aparente [9]. Esta criminalização, por fim, tende a justificar a ferocidade da repressão e o desenvolvimento de um imaginário do conluio [10] que virão alimentar as práticas de delação [11] características do funcionamento político do estalinismo.

As consequências da redefinição do trotskismo no seio do PCF (1936-1940)

A Internacional comunista vai tomar a seu cargo esta redefinição e exigir que as diferentes secções nacionais integrem nas suas práticas esta obsessão anti-trotskista. Como observa Jean-Jacques Marie, a URSS e a IC “desenvolveram em 1936-1938 na luta contra o trotskismo (rótulo sob o qual eram classificadas todas as forças de esquerda anti-estalinistas) os meios de um aparelho de propaganda inaudito para a época” [12]. Estas diretivas exigiam que “a direção política de cada partido fixasse toda uma série de medidas destinadas a que a campanha em curso, pela sua natureza e envergadura, não só tivesse um carácter interno ao partido, mas visasse também as amplas massas populares. É necessário mostrar a essas massas que o trotskismo é uma agência do fascismo, que Trotsky e os trotskistas são os mais vis inimigos da URSS, os inimigos da liberdade dos povos e da sua independência, são restauradores do capitalismo na URSS, promotores de guerra” [13]. O CEIC chamava a atenção dos dirigentes para a necessidade de lutar no seio do partido contra qualquer tentação reconciliadora. Era preciso lutar “contra as mais pequenas tentativas de defender e de preservar o trotskismo ou contra qualquer manifestação de neutralidade em relação ao trotskismo, excluindo do partido todos os aderentes ligados de alguma forma à contra-revolução” [14]. Esta diretiva implica que a política de quadros e o dispositivo de enquadramento biográfico deem doravante um lugar de relevo à questão “trotskista”.

1937-1939: biografias e vigilância anti-trotskista

A abertura dos arquivos da Internacional Comunista e a elaboração progressiva de um corpo de hipóteses de investigação que tenta compreender o papel do capital político, positivo [15] e negativo [16], tal como pode ser apreendido pelas biografias e autobiografias da instituição, permite-nos compreender os usos da vigilância anti-trotskista, oferecendo uma via de acesso às suas dimensões ideológicas e simbólicas. Lembremos que, quando o controlo biográfico é implementado pelas comissões de quadros ao nível internacional e nacional no início dos anos 30, a atenção aos dissidentes e, particularmente, ao trotskismo era, de facto, insistente mas não dominante: «você esteve ligado ao grupo? Como? Aos trotskistas? No questionário de 1931, num contexto de eliminação da direção do “grupo de juventude” – o dito “grupo” promovido pela direção da Internacional comunista em 1928 para impulsionar a tática classe contra classe, depois denunciado por essa mesma IC como responsável pelos impasses dessa política — tratava-se de facto de um julgamento ou de um reconhecimento de cooperação com o grupo Barbé-Celor que era esperado. No novo contexto dos anos 36-38, o questionário é modificado e clarificado:

«Qual foi a sua posição num decurso das várias crises do Partido (Congresso de Paris 1922)? Esteve no Groupe Barbé-Celor? Fez parte de uma oposição? Que papel aí desempenhou? Fez parte da oposição Trotskista? Esteve ligado a trotskistas? Tem amigos entre eles? Quem é que conhece que milita entre eles ou que tem uma ideologia trotskista? O que pensa dos trotskistas? Tem ligações a Doriot? Em que época? Está ligado a elementos doriotistas? Quem é que conhece que esteja com Doriot? Esteve ligado a Ferrat e ao grupo “Que faire” [17]? Tem amigos que fazem parte ou estão ligados a eles?».

Nesta questão em quatro secções, tanto os biografados como os avaliadores da comissão de quadros centram a sua atenção sobre o trotskismo, à procura de qualquer afastamento da posição oficial. Este conjunto de questões, como se vê, visa determinar o presente e o presente das relações com os “trotskistas”, as opiniões sobre o trotskismo e faz explicitamente apelo à “delação”.

Em 1937, por altura do balanço que faz, em Moscovo, Maurice Tréand, num relatório sobre a campanha de “verificação” [18], a extensão dos ensinamentos tornados doravante possíveis pela aplicação sistemática do controlo biográfico e, em particular, os respeitantes ao trotskismo, é surpreendente. Desde o início de 1937, foram recolhidas 5477 biografias: “2307 dessas biografias estão lá em cima”, refere Tréand, o que significa em Moscovo. As outras, de menor importância, foram queimadas, “o essencial de cada uma delas está registado nos nossos cadernos” [19]. Os provocadores e os traidores – quer os elementos suspeitos de informar a polícia, quer os “trotskistas” – constituem o alvo prioritário. Fazem parte de listas negras, todos os 7 ou 8 meses, de “cerca de 100 nomes” cada uma. É anunciada uma brochura especial de excluídos trotskistas, “com a sua foto”, prefaciada por Jacques Duclos: «enviá-la-emos gratuitamente a todas as organizações e aos militantes.» A divergência política é dissolvida em provocação policial, o que citações dos “dois processos que decorreram aqui (em Moscovo) demonstrando a sua ligação com a Gestapo” deverão atestar. As avaliações dos quadros terão em máxima conta o relatório sobre o trotskismo e qualquer militante que sugira que a dissidência trotskista seja de ordem política será imediatamente suspeito. Maurice Tréand lamenta aliás que o “perigo” trotskista seja ainda, do seu ponto de vista, demasiado subestimado:

«Os trotskistas, como nos mostra o exemplo da URSS, introduziram-se entre nós e experimentam por experimentar aplicar as nossas palavras de ordem para melhorar e efectuar o seu trabalho de desagregação. Infelizmente, no partido continua a subestimar-se o perigo trotskista, sobretudo entre os intelectuais. Vou citar dois ou três exemplos. Há dois meses, acrescentámos ao esquema da autobiografia questões específicas respeitantes aos trotskistas e aos opositores [20]. As respostas dos camaradas mostram por vezes uma clara impressão de incompreensão ou, talvez, algo mais. Por exemplo, um quadro feminino responde o que ela pensa dos trotskistas «são antigos camaradas e é triste vê-los fuzilados desta forma», um outro responde que o trotskismo é uma fração da classe operária, um outro ainda que se trata de marxistas que não sabem ligar a teoria à prática. Apesar dessas falhas de compreensão que mostram que ainda é preciso fazer dentro do partido um trabalho de esclarecimento, os trotskistas em França têm sido, nestas últimas décadas, afastados do movimento legal» [21].

Com efeito, espera-se dos militantes que adotem como sua, sem reservas, a nova definição estalinista do trotskismo. Maurice Tréand associa, por fim, o perigo de “desvios” ligado à entrada massiva no partido comunista de membros da maçonaria e de intelectuais – que importa manter em posições subalternas – à ameaça trotskista: “reagimos também contra o crescimento dos intelectuais no partido. Estamos suficientemente vigilantes contra esse Comité de vigilância dos intelectuais. Reagimos contra o crescimento de professores nos nossos quadros de direção das regiões de província. Não por acaso que nas duas regiões em que nos desfizemos das direções neste último período tinham a dirigi-las dois professore, Geoffroy [22] em Charentes e Copin no Jura, ambos trotskistas.”

As Listas Negras

As listas negras testemunham igualmente esta focalização progressiva, nos anos 36-38, no trotskismo. A partir de 1931, as brochuras e os textos policopiados, editados periodicamente, dão listas de agentes provocadores, de “vigaristas” ou de inimigos do partido (excluídos por questões de dinheiro, oposição política, etc.), acompanhados de dados biográficos sumários e de informações suscetíveis de facilitar a sua deteção. Centradas principalmente na provocação policial no início, evoluem progressivamente, adotam o nome de listas negras, incluem cada vez mais trotskistas e traidores. Depois da brochura Brochette d’agents provocateurs, publicada em 1931, surge a primeira “lista negra dos provocadores, ladrões, bandidos e traidores expulsos das organizações revolucionárias de França” (não datada) nos finais de 1932. A lista n° 9, de Abril de 1938, acrescenta aos outros quatro qualificativos o de “trotskista”. A última (Janeiro de 1939) tem o número 11. Durante a guerra, irão surgir diversas listas, particularmente na zona sul, depois terá início uma nova série em Maio de 1945 (N° 1, Espions, traîtres, renégats et agents de la gestapo dénoncés par le Parti communiste français; n° 2 a 15 de Junho de 1945; depois um n° 3, s.d.). A lista n° 9, de Abril de 1938, intitula-se “Liste noire de provocateurs, voleurs, escrocs, trotskistes, traîtres (chassés des Organisations Ouvrières de France)”. O preâmbulo contém uma longa diatribe contra os trotskistas:

«Os trotskistas, que são agentes de Hitler e de Mussolini no nosso país, têm por missão destruir as organizações operárias introduzindo os seus homens nas fileiras dessas organizações e tentando corromper os militantes. Eles preparam assim a via ao fascismo do exterior e do interior, esforçando-se por reunir em França os elementos de uma “Quinta Coluna” como tentaram em Espanha. Nas fábricas, instigam greves prematuras. Procuram desorganizar, simultaneamente, a produção e o movimento operário. Eles querem, a qualquer preço, desagregar, para melhor aplicar as ordens que têm de liquidar e fazer desaparecer por todos os meios as organizações operárias. Na URSS, o Partido Bolchevique, com o seu chefe Estaline à cabeça, soube desembaraçar-se dos traidores, agentes do exterior. Soube, impiedosamente, desembaraçar-se dessa praga que tentava reinstalar o capitalismo. Aqui, devemos com todas as nossas forças travar uma luta contra os traidores trotskistas. É preciso expulsá-los de todas as organizações. Para isso é necessário estar vigilante, saber detetá-los, saber mostrar a sua duplicidade e, quando os desmascararmos, persegui-los sem hesitar nem fraquejar até à liquidação total de todas as suas organizações, sem exceção. Não se pode perder nenhuma oportunidade de explicar e de demonstrar o que eles são, para que todo o nosso povo seja informado a respeito deles e que os persiga e os pregue no banco da infâmia dos traidores, dos provocadores e dos assassinos».

A criminalização apresenta, visivelmente, doravante uma forma assertórica sem que um qualquer “real” seja posto ao serviço da denúncia, o que, claro, coloca a questão do real efetivamente em jogo neste processo. Durante a guerra, a recuperação das listas negras deu, evidentemente, lugar à caça aos trotskistas. Desde a lista n° 1 de Janeiro de 1943, que se volta a dar a definição estalinista do trotskismo [23] e o ódio anti-trotskista irá justificar o assassinato de militantes trotskistas, nomeadamente o de Pietro Tresso, um dos fundadores do PCI com Antonio Gramsci.

As apropriações militantes do anti-trotskismo: entre adesão e reticências

Até que ponto os militantes e quadros comunistas estavam dominados por este anti-trotskismo? Se bem que seja particularmente difícil responder a esta pergunta, pode-se tentar explorar as respostas dadas aos questionários biográficos. Relativamente a militantes e quadros comunistas, quer confirmados quer em vias de promoção, os questionários biográficos conservados nos arquivos do Komintern (RGASPI) fornecem materiais que inscrevem a vigilância na diversidade dos posicionamentos individuais, apesar do quadro muito restritivo do exercício, que não permite reserva explícita (a qual, no entanto, surge a título excecional). O conjunto das respostas, aberta e claramente hostis ao trotskismo as mais das vezes, não deixa de exprimir menos frequentemente, à margem, uma espécie de “contenção” mais ou menos consciente. Se em mais de metade dos casos estudados, os militantes nunca conheceram ou encontraram um trotskista, real ou hipotético, mais de um terço fornece informações precisas sobre ligações comprometedoras que pervertem «as fileiras da classe operária» como nos meios docentes. Estes são particularmente visados, de acordo com a tradição obreirista do PCF, mas também considerando «a audiência» do trotskismo em certos meio docentes, os do sindicalismo em particular. Estes «semi-intelectuais», estes «intelectuais exaltados», «picuinhas», «revolucionários de trazer por casa» são suscetíveis de influenciar os trabalhadores não educados e mesmo de «arrastar bons camaradas».

Se as formulações desprestigiantes para denunciar o carácter «perigoso» dos «piores inimigos do povo» florescem, a referência ao fascismo e, sobretudo, a identificação do trotskismo com o fascismo surgem por vezes dificilmente na escrita dos militantes. Cerca de um terço fá-lo sem reservas («trata-se de fascistas»), qualificando a sua ação («Trabalho do fascismo e da burguesia») ou concedendo só uma aliança («Aliados do fascismo para derrubar o nosso grande PC», «ação que se alia à dos fascistas contra o nosso Partido») ou ainda atribuindo-lhes um lugar particular na família fascista («ramificação do fascismo internacional», «Ala ultra-esquerdista do fascismo) e um trabalho “para grande proveito do capital e do seu filho natural, o fascismo». Finalmente, estes «fascistas do regime» deixaram de ter ligação ao movimento operário e ao comunismo: há «tanta diferença em relação ao Partido como entre Doriot-La Rocque e nós.

A caracterização da ação trotskista na URSS, ou em Espanha, como criminosa é uma maneira complementar de se aproximar das formulações pretendidas: se no final são pouco numerosos os que se aventuram neste terreno, os que o tentam, fazem-com energicamente, sem poupar

«a vanguarda da contra revolução no movimento operário internacional», «os provocadores e [os] assassinos ao serviço do fascismo», os que praticam a «sabotagem na URSS», nomeadamente, dos «planos quinquenais», que se aliam à França como as «provas que foram fornecidas no processo do POUM»; face a este «bloco de provocadores, de inimigos sem princípios», é preciso estar «mais vigilante do que nunca» e «denunciá-los, sobretudo neste momento, como inimigos do povo», «esta corja de aventureiros assassinos, traidores».

Os mais atentos às orientações internacionais aludem explicitamente à publicação de Estaline «Para uma formação bolchevique» (escrita, na verdade, por um operário da Renault, formado por Arthur Dallidet, um dos responsáveis pelos quadros) ou referem-se ao «ódio contra a União Soviética e os seus dirigentes, com o camarada Estaline à cabeça», apesar dos processos deixarem perplexo um professor de Viena:

«Quanto aos trotskistas da Rússia e de Espanha, é evidentemente necessária fazer um esforço para compreender a sua traição e lembrar-se sobretudo que no fundo da maioria dos velhos bolcheviques se encontra um terrorista adormecido».

Este esforço de compreensão só pode ser interpretado como uma resposta «não conforme» uma vez que elude uma dimensão essencial da denúncia, a duplicidade, o homem de duas caras que é preciso «revelar», «desmascarar» e não tentar perceber. Convém, portanto, desconfiar dos que não «defendem conceções abertamente trotskistas» e que «pretendem ser os ‘defensores’» dos operários, dos «hipócritas» que se dissimulam sob atitudes revolucionárias», que «estão mais ou menos disfarçados». Eles «devem ser impiedosamente desmascarados» e tanto pior para os intelectualóides, ainda que sinceros, eternos críticos e descontentes que fazem o seu jogo e o do inimigo». Todas estas nuances, que concedem mesmo aos apoios aos trotskistas o benefício da sinceridade, deixam entrever o carácter um pouco forçado da aplicação das orientações estalinistas. Neste mesmo departamento de Eure-et-Loir, um outro professor, Jacques Decour — o futuro grande nome da resistência — vê-se classificado com «C» pela comissão de quadros (dispensado de responsabilidades) por se contentar com — entre outras fraquezas — esta fórmula:

«Está provado que os trotskistas são – por vezes inconscientemente – contra-revolucionários ao serviço do fascismo internacional.»

É evidente que os docentes, educadores como professores, mesmo totalmente dedicados à defesa das orientações thorezianas e à necessidade de combater a «oposição unitária» que tinha sido maioritária na Federação Unitária do Ensino, dificilmente retomam a globalidade do discurso. O confronto entre o ferroviário trotskista Saufrignon, militante experiente, e um dirigente de Viena, jovem professor associado de matemática, demonstra algum embaraço:

«Nós, em Poitiers, tivemos que lutar com bastante dureza no final de 1934 e em 1935 contra os trotskistas durante o desenvolvimento da organização na nossa cidade. É a esta luta que eu [devo] as minhas relações com eles. Os militantes trotskistas eram nessa época Saufrignon, então ferroviário em Le Blanc (Indre), o «teórico» da equipa, atualmente em Poitiers, Philippe Mary, antigo militante comunista horticultor e um estudante chamado Gailledrat que é atualmente professor na região de Paris (creio que em Argenteuil)».

Embaraço que surge de novo pela mão de professor Alphonse Bouloux:

«Fui amigo de Saufrignon que passou para a IVª Internacional. Fez, para que o seguisse, esforços árduos… e inúteis. […] Penso que os trotskistas ou outros que eles dizem ‘esquerdistas’ são, na maioria: ou camaradas que não querem militar e se contentam em criticar, o que é mais fácil, ou semi-intelectuais que têm um preconceito contra la Rússia».

O próprio Jean Bruhat, professor de História em Nantes e autor da brochura O castigo dos espiões e traidores durante a Revolução Francesa [24], que legitimava os processos de Moscovo por analogia com a Grande Revolução, evita as alusões ao fascismo ou à criminalidade:

«Em 1926 estive em contacto com elementos da oposição (Souvarine, Révolution Prolétarienne). […] Não tive nenhum papel ativo. Deixei-os passados alguns meses convencido de que me tinha enganado (a política de Estaline persuadiu-me em particular do meu erro). Mas há mais de onze anos que não tenho relações com as diferentes oposições. Não tenho amigos entre os trotskistas. Devo, no entanto, assinalar que o meu cunhado Alfred Delhermet, professor em Puy continuou a relacionar-se com o grupo da Révolution Prolétarienne. Considero os trotskistas como agentes da burguesia. Combati-os na antiga Federação Unitária do Ensino.»

A professora de filosofia, Marguerite Buffard contenta-se com uma resposta lacónica:

«Condeno o trotskismo. Nunca estive relacionada com trotskistas (salvo uma vez em Colmar onde um emigrado alemão queria denegrir o Partido com argumentos trotskistas, corri com ele).»

Este ativismo anti-trotskista imposto aos militantes e quadros comunistas, erigido em ritual de integração na comunidade dos «fiéis» e em teste «do espírito do partido», marcará doravante de forma duradoura a cultura estalinista do PCF.

A segunda vida de Léon Davidovitch (1940-1969)

O assassinato de Trotsky não acaba, de facto, com o anti-trotskismo que permanece em certa medida independente da realidade das forças trotskistas no mundo. Pelo contrário, o assassinato arrisca-se a conferir uma dimensão de mártir a este opositor ao regime soviético suscetível de incarnar doravante um dos símbolos de toda a oposição. O anti-trotskismo continua a ser uma das dimensões da história do comunismo da qual não podemos aqui lembrar senão alguns momentos chave.

Trata-se menos da perseguição real do “profeta” e dos seus filhos, no sentido literal e no sentido figurado, em que a França foi uma das placas giratórias, do que de um combate fantasmático. Apenas alguns souberam muito cedo, como Joseph Minc [25], que o assassino de Trotsky tinha sido recrutado em França. Mais raros eram aqueles que conheciam as execuções anteriores à guerra, como a de Ignace Reiss, na Suíça, quando chegava a França, ou Rudolf Klement [26], em Paris, em Julho de 1938. Tratava-se, aliás, de operações profissionais dos serviços soviéticos [27], que hoje se conhecem ao contornos graças às memórias do mandatário, Soudoplatov, mas de que a imprensa comunista negava a existência. A guerra permite ou provoca execuções sumárias, pouco numerosas mas significativas de um ódio feroz, execuções de um outro tipo já que decorrem em território francês e por iniciativa de militantes nacionais. A execução de quatro trotskistas da resistência do Wodli no Haute-Loire [28], no fim de Outubro de 1943, é simultaneamente o episódio mais conhecido e mais significativo. Seria sem dúvida comparável a situações semelhantes nos territórios europeus libertados. Por exemplo, em Setembro de 1941, a constituição do território libertado da Jugoslávia dito «república de Uzice», no oeste da Sérvia, onde Zivojin Pavlovic, comunista excluído, autor de Bilan du Thermidor de Staline, foi torturado e morto pelos dirigentes comunistas jugoslavos. As execuções conhecidas ocrrem em França por volta da Libertação. Citemos dois casos mais ou menos esclarecidos. Marcel Brocard, operário carpinteiro e depois funcionário de liceu em Auxerre, foi encontrado a 23 de Dezembro de 1944 num bosque com o corpo decomposto. Tinha sido levado de sua casa por resistentes a 22 de Setembro de 1944. Este antigo membro do Comité Central do Partido Comunista Internacionalista, detido em Agosto de 1941 na qualidade de «militante e agitador da 4ª Internacional» e encarcerado no campo de Vaudeurs (Yonne), não tinha escondido as suas convicções aos outros presos comunistas. Uma averiguação realizada junto de testemunhas e nos arquivos indica claramente que são os ódios acumulados durante essa estadia em Vaudeurs que provocaram a sua morte, por iniciativa de antigos prisioneiros. O silêncio manteve-se durante meio século.

Michel Buchloz, de origem judaica, militante trotskista parisiense, frequenta no fim da guerra os meios comunistas para recrutar novos militantes, que ele formava na leitura dos clássicos do marxismo. Recruta também aquele que se vai tornar o dirigente da corrente Lutte Ouvrière, Robert Barcia [29]. Preso por militantes comunistas na Libertação, o seu corpo é encontrado no Sena. Estas execuções são certamente muito menos numerosas que as purgas internas que afetam os militantes comunistas que «traíram», suspeitos de fraqueza ou mesmo injustamente acusados, como Georges Déziré executado a 17 de Março de 1942 em Château, depois atirado ao Sena, antes de ser reabilitado por Jacques Duclos nos anos 1970. O seu amigo, Pierre Teruel-Mania, perguntava-se se o facto de ter tido uma irmã trotskista, Jeanne Déziré, não teria contribuído para a sua perdição. Na verdade, nada o prova; pode apenas assinalar-se a sua insistência em demarcar-se dela na sua autobiografia para a comissão de quadros, datada de 13 de Dezembro de 1937:

«Tive, por exemplo entre Agosto de 1937 e hoje, de travar a luta dentro do partido contra a minha irmã, ligada pelo trabalho e provavelmente também em termos sentimentais com um trotskista célebre, Leblond de Rouen, do sindicato dos técnicos. Depois de ter feito trabalho de esclarecimento na sua célula e junto dela, perante a sua atitude provocadora e a sua vontade de lutar contra do Partido, pedi que comparecesse perante uma comissão de controlo que concluiu pela sua exclusão. Paralelamente, travo a luta contra os membros desse mesmo grupo do qual descobrimos os elementos um a um.» [30]

Nas suas «memórias», Annie Kriegel recorda que a caça aos trotskistas não abrandou com a morte do «chefe», a guerra ou a Libertação. Desde 19 de Setembro de 1944, que o Humanité falava dos «agentes trotskistas da Gestapo». A conferência dos responsáveis pelos quadros da Região Parisiense e da antiga zona norte do 7 de Outubro, organizada na Mutualidade pela Comissão Central de Quadros, trata dos trotskistas e lembra que «o trotskismo não é um movimento político». Em Dezembro, a 8ª conferência regional de Paris-Este tinha recomendado identificá-los «onde quer que estejam» [31]. Se o anti-trotskismo é tão poderoso na Libertação ao ponto de tornar difícil o regresso à legalidade e a publicação normal da imprensa trotskista, os sucessos, limitados, são reais nas empresas e nas administrações — por exemplo nos PTT ou no Livre e na metalurgia, como testemunham Maurice Alline [32] ou Simonne Minguet [33], e como indicará o papel despoletador dos trotskistas na greve da Renault em Abril-Maio de 1947. Na província, como descreve Marcel Thourel para a região de Toulouse, foi igualmente o primeiro avanço eleitoral nas eleições de Junho de 1946 [34]. Isto inquieta a direção do PCF e serve de argumento a Etienne Fajon que publica um artigo nos Les Cahiers du Communisme intitulado «Um instrumento do fascismo e da reação: o trotskismo», com o título no sumário “O Hitlero-Trotskismo” (1946) [35]. O entrismo também tinha dado alguns resultados: no seio do Movimento Unido dos Albergues de Juventude (MUAJ) e na direção das juventudes socialistas. As greves de 1946 a Maio de 1947 viram trotskistas desempenhar um papel considerável, em particular na Renault, conduzindo o partido a decidir “asfixiar” a audiência trotskista na classe operária. Robert Mencherini, num estudo sobre as greves de 1947-1948, dá conta das apreensões de Alfred Costes no seu relatório ao comité central face a esta “ameaça” trotskista. Embora este último relate “agressões a vendedores do La Vérité”, “ele também dá conta das reservas de militantes do partido em participar. Vê nisso uma falta de maturidade política”. Embora o PCF tenha conseguido conter a influência trotskista no meio operário, o mesmo não se verificou no mundo intelectual [36]. Os “trotskistas”, ou melhor alguns trotskistas, desempenharam um papel importante durante a Guerra Fria, seja através de David Rousset, ou ainda de intelectuais como Claude Lefort que, muito cedo, associaram o seu anti-totalitarismo ao apoio à divulgação de testemunhos sobre o mundo soviético e os campos [37]. A estas iniciativas de «revelação», o PCF opõe uma política de censura simbólica que provém da denúncia dos «denunciantes» como traidores. Com mais ou menos sucesso segundo o caso, com a ajuda da lógica de guerra, uma visão conspiratória da história será então solicitada. Um dos livros mais difundido junto dos militantes comunistas foi “A Grande Conspiração: a guerra secreta contra a Rússia Soviética” de Michel Sayers e Albert E. Kahn que as Editions d’Hier et Aujourd’hui publicaram em 1947. Os Cahiers du Communisme de Outubro de 1947 (n°10) [38] fazem-lhe o elogio, convidando cada comunista a lê-lo e a meditar sobre ele. Embora a visão conspiratória da história não seja de todo marxista, é ao mesmo tempo muito popular e partilhada [39]. A grande conspiração contra a Rússia tem lugar dentro da série de relatos análogos aos sucessos públicos sem precedentes, como Os Protocolos dos Sábios do Sião, por exemplo [40]. Efeito mistificado da distância relativamente ao campo político que leva a imputar a agentes “intenções” dissimuladas ao princípio do surgimento dos “acontecimentos” (guerras, etc.), reelaboração pseudo-explicativa da oposição entre «eles» e «nós» (Richard Hoggart), o esquema da visão conspiratória da história acaba por fundir-se, para os leitores comunistas, no esquema da história como luta de classes, em que o imperialismo americano «incarna» então o «mal absoluto», insidioso, omnipresente, jogando o próprio trotskismo, em parte, o papel destinado aos judeus [41] na propaganda anti-semita. Estes anos de guerra fria mundial, no rescaldo da segunda guerra mundial, são com efeito, quer com os romances [42] quer com os filmes de espionagem, particularmente propícios, em ambos os lados, à vulgarização de uma hermenêutica críptica [43]. Todo o texto crítico é portanto redefinido na categoria de falso [44] (no sentido estrito ou no sentido lato de texto falseado pela sua sujeição à propaganda comunista) que não sai da lógica do debate ou da lógica da “conversa inteligente”…

Evitar a discussão crítica do texto implica a desqualificação dos autores cuja nosografia se elabora: polícia, desertor, renegado, apóstata, espião, antigo nazi ou fascista, traidor, etc. Estas qualificações incidem sobre as “pessoas” e compreende-se por conseguinte que o processo judicial tenha sido uma das ferramentas do reportório da desqualificação. Para além dos processos célebres – Kravchenko [45], Rousset [46] – houve muitos outros. Etienne Fajon (membro do BP do PCF), num relatório sobre a degradação da imprensa comunista na reunião do CC de 26 de Março de 1952, dá conta da instrução em curso de 139 processos contra o Humanité, manifestando a sua inquietação relativamente ao custo financeiro dessa inflação judicial.[47] A forma de processo, atualize-se ou não judicialmente, tende a desqualificar o autor fazendo pesar sobre ele uma suspeita mais ou menos fundada. Essa suspeita será sistematicamente explorada, variando consoante o caso o ónus que pesa sobre os “acusados”. É o caso, por exemplo, para o célebre “J’ai choisi la liberté” de Victor Kravchenko (1947) que “Les Lettres Françaises” apresentam como falso, forjado por um “desertor”, refém da CIA (Artigo “Comment fut fabriqué Kravchenko”, 13 de Novembro de 1947). Foram organizados outros tipos de «processos». Em 1955, foi organizada uma reunião na Mutualidade para contrariar os possíveis efeitos da obra de Maurice Merleau-Ponty “Les Aventures de la dialectique” [48].

Nem os mortos escapam a este registo como testemunham as desventuras póstumas de Paul Nizan [49]. A sua importância para o dispositivo censura simbólica do PCF deve-se ao facto de incarnar perfeitamente, no imaginário político dos intelectuais comunistas, a figura do traidor. Terá o seu devido lugar neste papel, sob o nome de Orfilat, na primeira versão (1949-1951) de “Communistes” de Louis Aragon, além de ter sido um caso exemplar, deste ponto de vista, no estudo que Henri Lefebvre consagra a “L’existentialisme” em 1946 [50]. Jean Kanapa contribui também para a elaboração da personagem do traidor.

A partir dos anos sessenta, o PCF é progressivamente confrontado com a emergência de grupos “esquerdistas”, entre os quais as diferentes variantes do trotskismo constituem os alvos privilegiados, relativamente inquietantes numa altura em que o aggiornamento do PCF, em curso, e as revelações cada vez mais claras sobre o estalinismo interditam ou, pelo menos, limitam, a interpretação incriminatória. É então sob os auspícios do Lenine da Doença Infantil do Comunismo que se trava a “batalha ideológica”. Apela-se, todavia, a um quadro estalinista tipo, formado no ELI nos anos trinta, Léo Figuères, para dotar os quadros e militantes “leitores” de um opúsculo que era suposto prepará-los para a ação contra o trotskismo: Le trotskisme, cet anti-léninisme (1969, Editions Sociales). A relativa marginalização da extrema-esquerda nos anos setenta irá tornar esta obsessão menos urgente.

Fenómeno recorrente, o anti-trotskismo é, portanto, uma das dimensões estruturais do estalinismo e é esta dimensão que importa agora tentar esclarecer.

O polimorfismo anti-trotskista e o estalinismo

Para este efeito, não seria sem dúvida incongruente voltar à matriz ideológica do anti-trotskismo tal como ela foi progressivamente elaborada pela propaganda estalinista. Na impossibilidade de analisar aqui o conjunto dos textos que seria sem dúvida necessário convocar, limitar-nos-emos a um texto exemplar, o de Barbusse, de 1935, redigido por conseguinte durante a fase anterior à criminalização. A propósito da biografia que dedica a Estaline, Henri Barbusse constrói em contraponto à imagem do seu “herói”, contra-retrato, o de Trotsky. Ao fazê-lo, é levado a recusar o conjunto dos valores negativos que alegadamente caracterizam este último. Eles passam então a fazer parte de uma matriz simbólica de “valores” suscetíveis de estruturar uma multiplicidade de enunciados e de codificar as biografias dos trotskistas que se lhes irão moldar. É a esta matriz que se vão juntar, após 1934, as temáticas próprias da criminalização: “a conspiração” e “a traição”:

«Estaline e Trostsky opõem-se, de facto, aqui como o inverso um do outro. São dois tipos de homens, um numa ponta, outro noutra, da coleção contemporânea. Estaline apoia-se completamente na razão, no sentido prático. Ele está armado de um método impecável e inexorável. Ele sabe. Ele compreende integralmente o leninismo, o papel dirigente da classe operária, o papel do partido. Ele não procura fazer-se notar, não está perturbado por um desejo de originalidade. Ele tenta simplesmente fazer tudo o que é possível. Ele não é homem da eloquência, é o homem da situação. Quando fala, procura tão só combinar a simplicidade e a clareza» [51].

Em oposição, Trotsky define-se como “um intelectual pequeno-burguês”, “confuso”, pela “fraseologia”, a “indolência”, a “cobardia”, o “desejo de originalidade”, o “pessimismo”, a “dúvida”, “a falta de convicção”, “o espírito conciliador”. Um dos desafios, se bem que Trotsky tenha sido um líder militar, é fazê-lo cair para o lado da “feminilidade” pela conotação negativa de um vocabulário diferenciado de um vocabulário virilizado que caracteriza o estalinismo»[52].

A categoria política “Trotsky” está no cerne de uma matriz de oposições simbólicas fundamentais (homem/mulher, manual/intelectual, viril/efeminado, reto/dissimulado, ortodoxo/heterodoxo, discreto/tagarela, operário/pequeno-burguês, desinteressado/orgulhoso, mestre de si/versátil, Nós/Eu, coletivo/individual, etc.), que permite a glosa infinita e, simultaneamente, funciona sem que o conjunto das categorias binárias tenha de ser explicitamente convocado. Fundada superficialmente numa teoria “científica” das classes sociais que está no centro do referencial biográfico estalinista e das suas múltiplas utilizações, deparamo-nos, como no efeito Montesquieu analisado por Pierre Bourdieu, com uma “teia de oposições e de equivalências míticas ”que constitui a “verdadeira estrutura fantasmática que suporta toda a ‘teoria’”[53]. Esta coerência mítica não precisa de ser exaustivamente explicitada e deve-se, sem dúvida, ao carácter “literário” e à questão biográfica do texto de Barbusse a aplicação quase sistemática do sistema de oposições sob a forma mais ética, menos “racionalizada”, possível. Na medida em que esta teia de relações se tece a partir de um pequeno número de oposições que apenas são invocadas por um dos seus termos, pode-se questionar se certas propriedades, como o judaísmo, que não podem ser explicitamente nomeadas, não são todavia sugeridas, ou mesmo, explicitamente invocadas “oralmente” [54]. Por outro lado, é sem dúvida a este jogo sobre um repertório de oposições estruturantes de dimensão universal e mítica que a ação de denúncia do “trotskismo” deve o poder de se adaptar a contextos culturais tão diversos [55].

É suscetível, por fim, de se enriquecer: a criminalização do trotskismo desempenha essa função. Acrescenta simplesmente duas propriedades contidas em potência no sistema de classificação anterior: a traição e a conspiração.

A conspiração e a traição

Porquê a invenção da figura estalinista do trotskista, e de Trotsky em primeiro lugar, como criminoso? Porquê a invenção desta categoria da conceção política estalinista que se organiza em torno da temática da conspiração, fomentada ainda por “traidores”? Devem ser dissociadas duas questões: a da “escolha” desta narrativa da conspiração na lógica estalinista; a da sua audiência diversificada. A criminalização, como se viu, é coerente com o estalinismo: conclui o processo de erradicação da “diferença política” interna ao partido comunista e conduz à eliminação pela repressão de todos os opositores. A «guerra» – ameaçadora e num certo sentido «desejada» – justifica os apelos à disciplina e proíbe as lógicas de campo. Pierre Bourdieu, retomando por conta própria a ideia de Stephen Cohen, afirmava que a «estratégia da militarização» «é sem dúvida a única contribuição original de Estaline para o pensamento bolchevique, portanto, a característica principal do estalinismo» (…) «Este pensamento militarista é evidentemente maniqueísta, celebrando um grupo, uma escola de pensamento ou uma conceção constituída como ortodoxia para melhor aniquilar todas as outras» [56]. Deste ponto de vista, a criminalização do trotskismo não tem outro fundamente senão a lógica da arbitrariedade estalinista. Num certo sentido, esta arbitrariedade é gerada pela estalinização, i.e., a criação de um sistema político forçado a permanecer fiel à sua ideocracia, tendo como mito a negação da história. As contradições da vida social, as oposições e os diferendos, não tendo estatuto legítimo nesta fuga para a frente burocrática e repressiva, não podem ser “apreendidos” senão na lógica do desvio, da oposição “camuflada” e não expressa, lógica que encontra a sua coerência num tipo de discurso, o discurso da conspiração criminosa [57]. A crença na conspiração remete sem dúvida, de um modo geral, para um conjunto de mecanismos interligados, que variam segundo as conjunturas, em que as ilusões do político, núcleos de plausibilidade, elementos de realidade, interesses geopolíticos (como no caso da cegueira semi-voluntária dos que desejavam associar a URSS aos combates antifascistas), usos diversos (vingança, concorrência, designação de responsáveis), vêm ativar ou reativar estratos psicológicos. Uma conjuntura de crise como a do mundo soviético, redobrada pela crise das sociedades imperiais (C. Charle) e as duas guerras mundiais, só podiam favorecer a audiência desta temática.

Era possível opor-se-lhe, claro, como demonstra a Comissão Dewey, era preciso privilegiar deliberadamente a atitude racional (cuja filosofia pragmatista de Dewey associada a um compromisso político não partidário é uma modalidade exemplar). [58]

A figura da traição é essencial ao imaginário do anti-trotskismo. Sheila Fitzpatrick destacou a sua especificidade:

«O partido exigiu sempre aos seus membros que dessem provas de vigilância. Todavia, desta vez, havia uma novidade: não se tratava apenas de desconfiar dos inimigos do exterior, mas também dos inimigos do interior. “O interior” era, sobretudo, o interior do partido comunista. Mas existia uma outra ideia: não corria cada um o risco de abrigar um inimigo em si próprio?» [59]

Um traidor vive dentro de si adormecido. Não será todo o militante suscetível de possuir uma qualidade propícia a uma “deriva”, um “desvio” cujo terminus ad quem será a traição: o “velho”, a cobardia, a mesquinhez, a venalidade, o envelhecimento, a corrupção, a doença. Pode compreender-se, então, que a “traição” seja preocupante, talvez obcecante: não se refere ela a uma carência de trabalho sobre si? [60] Será que se explica através das predisposições? E, em caso afirmativo, de que natureza? Psicológicas, sociais, políticas? Logo em 1939, Kurella dirige a este respeito uma carta a André Marty a propósito do espanhol Miaja :

«Entrevia um conflito trágico (a moção (sic) de ‘tragédia’ tomada na sua aceção mais clássica): o deslizamento forçado da traição de um homem, cujas intenções, inicialmente, não eram claramente as de um traidor consumado, mas que tendo enveredado por maus caminhos, mesmo de boa-fé, é forçado pelas circunstâncias, ou melhor pelas alianças que escolheu, a levar a traição até ao fim. Não é por isso menos culpado nem menos traidor e a sua traição até é mais detestável, mas resta-lhe qualquer coisa de trágico e também dá o exemplo pelo seu exemplo negativo. A lição: no que é que se torna um homem que no momento de uma viragem decisiva da história opõe a sua opinião individual à opinião coletiva da vanguarda revolucionária» [61].

Estas explicações são reforçadas pela história: o tema da traição – de que seria preciso contar a história [62] – é remanescente na história do comunismo e mesmo constitutivo, já que é à “traição” dos dirigentes socialistas durante a primeira guerra mundial que se atribui a necessidade de refundar o internacionalismo proletário. Jean Bruhat, já referido, tinha ido buscar ao exemplo da Revolução Francesa a sua defesa dos processos de Moscovo:

«Como admitir que, entre os “gigantes” de Novembro 1917, alguns se tenham tornado “agentes anti-soviéticos”. Todavia, naquele tempo, não duvidávamos das acusações dos magistrados e, por conseguinte, dos vereditos dos tribunais. Socorríamo-nos da nossa história nacional. Porque não teria havido na URSS um Zinoviev-Danton, um Toukhatchevsi-Dumouriez? Espontaneamente, eu ofereci, neste espírito, ao Humanité vários folhetins. A pedido de Thorez, foram reunidas, em 1937, numa brochura» [63].

O “inimigo” – o capitalista, o imperialista –, num certo sentido, não representa um verdadeiro perigo, conforta na legitimidade do combate: figure de contraste, certamente, mas instalada na alteridade [64]. O traidor é completamente diferente e esta é, sem dúvida, a razão da insistência deste motivo ideológico nos romances do realismo-socialista [65]. Uma obra, em França, de receção múltipla, vai dar a conhecer esta temática e os seus reptos conferindo-lhe uma espécie de “nobreza” trágica: O Zero e o Infinito de Arthur Koestler em que um dos objetivos é determinar a traição objetiva de Roubachov que está, no entanto, subjetivamente inocente. Hoje em dia, conhece-se a receção crítica bastante bem. Publicado em 1945, torna-se em poucas semanas um surpreendente best-seller. Avaliam-se em 300 mil os exemplares vendidos em França entre 1945 e 1948 [66]. A obra suscita por parte do PCF um contra-ataque violento depois da derrota da tática do “silêncio”. Em 1947, Roger Garaudy publica um panfleto, Une littérature de fossoyeurs, no qual denuncia os escritores “pequeno-burgueses” um por um (Sartre, Mauriac, Malraux, Koestler). Em 1950, Jean Kanapa publica um panfleto cáustico, Le Traître et le Prolétariat ou Koestler et Compagnie, Ltd., consagrado ao Zero et l’infini [67]. É sabido que Maurice Merleau-Ponty vai basear a sua reflexão sobre o comunismo na obra de Koestler (mas também na figura de Trotsky para o qual não é nada meigo em Humanisme et Terreur). Voltará a estas questões, mas desta vez em modo de “rutura”, com Les Aventures de la Dialectique, rutura ao mesmo tempo com Les Temps Modernes e com o estalinismo.

Conclusão

O trotskismo, tal como o interpreta o estalinismo, tal como o encena e o inventa, tal como o julga e o condena, presta-se de forma bastante ideal às diversas interpretações das disfunções das quais o estalinismo deve ficticiamente dar conta. Às categorias de entendimento mais pobres próprias do domínio político, o anti-trotskismo oferece a sua récita conspirativa mítica, o seu reforço arcaico e os interesses múltiplos, simbólicos e práticos, associados às denúncias. Aos mais enfeudados às lógicas estalinistas, a esses quadros totalmente dedicados à Revolução, proporciona, apoiando-se nas ilusões partilhadas do “poder fazer a história”, uma explicação suscetível de dar conta das falhas do sistema. Aos mais relutantes a este registo, oferece secretamente outras intrigas mais comedidas que dão do trotskista uma imagem do “intelectual” e dos seus “defeitos” sociologicamente “explicáveis”. O polimorfismo da imagem “estalinista” do trotskista oferece, portanto, uma argumentação e um sistema de oposições simbólicas de que se podem apropriar de maneiras diferentes militantes e quadros. “Trotsky” condensa num grau invulgar um conjunto de propriedades suscetíveis de serem reinterpretadas na lógica estalinista da imagem do criminoso e do traidor. Trotsky, agora o homem, tinha consciência disto e sabia que isso não podia deixar de suscitar o desejo de vingança de Estaline [68].

Para além destes jogos e destas margens de jogo, a récita do anti-trotskismo não deixa de ficar, in fine, reduzida às restrições lógicas da “metafísica tradicional” que “inscrevem a oposição amigo/inimigo num espaço dicotómico, ignorando a possibilidade de um terceiro termo neutro” [69]. O que tende a demonstrar – confirmando por análise lógica o que se poderia pensar – a análise de Jean-Michel Berthelot é que o pensamento vulgar e o pensamento estrutural, por vias específicas, se encontram na sua distância com o pensamento binário: introduzem sempre “possíveis” complexos, ou seja dúvidas, subtilezas, continuidades. Ao perseguir de maneira exigente e quase obsessiva qualquer enunciado suscetível de introduzir continuidade onde o pensamento binário esperado só pode funcionar como disjunção, os responsáveis pelos quadros verificam o abandono por parte do biografado das formas de pensamento científico ou vulgares, em proveito de uma entrega de si próprio que constitui o “Outro” trotskista, mas também o outro em geral, num inimigo irredutível a qualquer outra consideração intelectual ou afetiva. Esse abandono conceptual (vulgar ou erudito), sustentado por todo um contexto de dramatização (que as guerras e as violências certificam para lá de qualquer esperança), resulta certamente do investimento de um desejo militante no seio de uma instituição cuja vontade de controlo é total e leva ao paroxismo certas lógicas clássicas da opinião manipulada: os “efeitos redutores”, “os efeitos de pares contrastantes”, os mecanismos que convergem para a passividade em relação ao grupo “desejado” (aqui, o partido), os efeitos de espelho que leva a interpretar tudo em “função de uma suposta imagem do «outro»”; por fim, os efeitos de antecipação que indicam que as “representações se formam num período de tempo indefinido, em função de projeções imaginárias de um futuro concebido como pré-determinado, a partido do é visto e compreendido do presente”[70].

Texto de Bernard Pudal e Claude Pennetier, publicado a 11 de Maio de 2017 na revista Contretemps.

Notas

[1] Publicado em Brigitte Studer, Heiko Haumann (Hg.)cSujets staliniens, l’individu et le système en Union soviétique et dans le Comintern (1929-1953, Chronos Verlag, Zurich, 555 p, 2006, pp. 253-271.

[2] Georges Labica, dir., Dictionnaire critique du marxisme, PUF, 1982, p. 910. Ver também “Naissance du Trotskisme”, capítulo XVIII da biografia de Pierre Broué, Trotsky, Fayard, 1988.

[3] O assassinato de Kirov é, pouco a pouco, atribuído aos principais dirigentes bolcheviques: “O assassinato do camarada Kirov, como soubemos mais tarde, foi perpetrado por este bando de trotskistas et de boukharinistas reunidos”, Histoire du PC (B) de l’URSS, p. 308.

[4] Ibidem, p. 91-92, citado por Nicolas Werth, “Sur les grands procès en Union soviétique” em Les Grands Procès Politiques, Emmanuel Le Roy Ladurie dir., Edições du Rocher, 2002, p. 90.

[5] Staline, L’Homme le capital le plus précieux e Pour une formation bolchevik, Éditions sociales 1945, p. 19.

[6] Roland Barthes teve em conta o papel central da definição na escrita estalinista: “No universo estalinista, onde a definição, isto é, a separação do Bem e do Mal, ocupa doravante toda a linguagem, já não existem palavras sem valor e a escrita tem finalmente como função evitar um processo: já não há nenhuma suspensão entre a designação e o julgamento e o fechamento da linguagem é perfeito, visto que é finalmente um valor que é dado como explicação de um outro valor; por exemplo, dir-se-á que determinado criminoso desenvolveu uma atividade prejudicial aos interesses do Estado; o que equivale a dizer que um criminoso é aquele que comete crime. Obviamente, trata-se de uma verdadeira tautologia, processo constante da escrita estalinista. Esta, com efeito, já não visa fundamentar uma explicação marxista dos factos ou uma racionalidade revolucionária dos atos, mas fornecer a realidade sob forma julgada, impondo uma leitura imediata das condenações: o conteúdo objetivo do termo “desviacionista” é de ordem penal. Se dois desviacionistas se reúnem tornam-se “fracionistas”, o que não corresponde a um delito objetivamente diferente, mas a um agravamento da pena. Podemos considerar uma escrita propriamente marxista (a de Marx e de Lenine) e uma escrita do estalinismo triunfante ( a das democracias populares)”, Le degré zéro de l’écriture, Seuil, (1953), 1972, p.21-22.

[7] Surgiu em França no Bureau d’Éditions, em 1939.

[8] Moshe Lewin, Le siècle soviétique, Fayard, 2003, p. 53-54.

[9] Esta “solidão”, que se manifesta nomeadamente no cuidado em não poupar qualquer relação, inclusive familiar, em todos os níveis do Partido, é sem dúvida próxima do que Donald Filtzer tenta designar pelas expressões “atomização” ou “molecularização”. Cf. a sua comunicação neste colóquio.

[10] Sobre esta dimensão, cf, Gabor Rittersporn, «The ompnipresent conspiracy: on soviet imagery of politics and social relations in the 1930s», em Stalinisme Its Nature And Aftermath, Editado por N. Lampert e G. Rittersporn, Londres, Macmillan, 1992. Bem como Roland Lew, «L’ennemi intérieur et la violence extrême: l’URSS staliniste et la Chine maoïste», em Cultures et Conflits, n° 43, Outono 2001.

[11] François Xavier Nérard, «Le bureau des plaintes dans l’URSS de Staline (1928-1941)», Revue d’Histoire Moderne et Contemporaine, 49-2, Abril-Maio 2002, p. 125-144.

[12] Documentos internos do Komintern sobre o movimento trotskista mundial nos anos trinta, em Les cahiers du mouvement ouvrier, n° 3, Setembro 1998.

[13] Ibidem, RGASPI, fundos 495, dossier 750, pages 3 et 4.

[14] Ibidem, RGASPI, fundos 495, inventário 20, dossier 751.

[15] Cf. em particular a introdução, “La volonté d’emprise” (p. 15-p. 39) de Autobiographies, autocritiques, aveux, Claude Pennetier, Bernard Pudal (dir.), Belin, 2002

[16] Sobre o capital político negativo, cf. Claude Pennetier, Bernard Pudal, “Les mauvais sujets du stalinisme” em Brigitte Studer, Berthold Unfried e Irène Herrmann (eds), Parler de soi sous Staline, Edições da Maison des sciences de l’homme, Paris, 2002.

[17] Trata-se de d’André Ferrat, antigo representante do PCF no comité executivo da IC, criador com Georges Kagan, membro do colégio de direção dirigido por Fried, da revista de oposição Que faire?. Ver Komintern: l’histoire et les hommes, dictionnaire biographique de l’Internationale communiste, sob a direção de José Gotovitch, Mikhaïl Narinski, Michel Dreyfus, Claude Pennetier, Brigitte Studer, Henri Wehenkel e Serge Wolikow, Les Editions de l’Atelier, 2001.

[18] RGASPI 495 10a 19.

[19] Estes cadernos assemelham-se sem dúvida aos elaborados por Lecoeur em 1955 e que registava, por departamento, os principais quadros com as idades, as profissões, as datas de acesso às responsabilidades.

[20] Trata-se das questões 40 e 41, respeitando a questão 42 aos doriotistas e a questão 43 às eventuais relações com Ferrat e o grupo da “Que faire?”.

[21] RGASPI, fundos Manouilski, 495 10a 16.

[22] De facto, Ernest Geoffroy não é professor mas sapateiro, depois gerente de cooperativa, erro que testemunha uma hostilidade contra os “semi-intelectuais” do mundo popular.

[23] Pierre Broué, Raymond Vacheron, Meurtres au maquis, Grasset, Paris, 1997, p. 251

[24] 1937, 64 p.

[25] Joseph Minc, L’extraordinaire histoire de ma vie ordinaire, entrevista concedida a Benoît Mougne, edição de autor, impressa por Book Pole, Paris, 2001, 210 p., amigo íntimo da família Mercader, ele foi informado muito cedo da identidade do assassino de Trotsky, mas permaneceu em silêncio durante muito tempo. Caridad Mercader (1896-1975), que tinha recrutado o seu próprio filho, Ramon, viveu e morreu em Paris.

[26] Antigo secretário de Trotsky, Rudolph Klement deixou a residência parisiense de Léo Malet (o futuro escritor) a 11 de Julho de 1938 e o seu corpo, identificado Malet, foi retirado do Sena à Meulan, sem cabeça e sem pernas, a 25 de Agosto.

[27] Como o serão em Espanha os desaparecimentos de Andrés Nin e de Kurt Landau.

[28] Ver as biografias de Pietro Tresso, Reboul, Abram Sadek e Maurice Segal no CD-ROM Maitron. Pierre Broué e Raymond Vacheron, Meurtre au maquis, Seuil, 1997.

[29] Robert Barcia alias Hardy, La véritable histoire de Lutte ouvrière, entrevista com Christophe Bourseiller, Denoel, 2003, pp. 73-79.

[30] RGASPI, Déziré Georges fundos 495 270/4187

[31] Annie Kriegel, Ce que j’ai cru comprendre, Robert Laffont, 1991, p. 350.

[32] Maurice Alline, Mon cahier ouvrier, Edições Ouest-France, 2003, 282 p. (nascido por volta de 1915, operário metalúrgico, trabalha na Renault, participa nas greves de Junho de 1936 e junta-se ao movimento trotskista. Participante na acção clandestina durante a Ocupação, é denunciado como hitlero-trotskista depois da Libertação e tem de mudar escapar. Finalmente, sai da fábrica e torna-se professor do ensino técnico. Militante du PSU, junta-se aos Verdes na velhice.

[33] Simonne Minguet, Mes années Caudron. Une usine autogérée à la Libération, Paris, Syllepse, 1997. Descreve a sua atividade trotskista na Caudron-Renault, fábrica de aviões de Issy-les-Moulineau, de Março de 1944 a Fevereiro de 1948.

[34] Marcel Thourel, Itinéraire d’un cadre communiste du stalinisme au trotskismo (1935-1950), prefácio de Rolande Trempé, introdução e notas de Dominique Porte, Toulouse, Privat, 1980, 315 p.

[35] Cahiers du communisme, Maio-Junho de 1946, nova série, nos 5-6, pp. 453-465. Etienne Fajon acrescenta aos temas retomados do período dos processos de Moscovo e da Ocupação, a referência às “palavras de ordem dos trusts anglo-americanos” e ao “serviço dos homens dos trusts em França”. Os questionários biográficos dos anos 1946-1948 incluem aliás uma questão “política” sobre os agentes dos trusts. Os militantes respondem em 5 a 10 linhas, citando os trotskistas, mas também os homens do MRP, da SFIO e, no final do período, os da FO.

[36] Sobre o período da guerra fria no meio intelectual dispomos doravante de um conjunto de obras (J. Verdès-Leroux, Marc Lazar, Pierre Grémion, Annie Kriegel, David Caute). Permitimo-nos assinalar a nossa contribuição: Bernard Pudal, “The PCF facing heretical texts during the cold war: symbolic censorship and control of appropriations” em Books Libraries, Reading & Publishing in the Cold War, editado por Hermina G.B. Anghelescu e Martine Poulain, Library of Congress, The Center for The Book, 2001.

[37] Um dos interesses da obra de d’Enzo Traverso sobre o “totalitarismo” é o de lembrar a importância desta corrente de análise crítica do sistema soviético. Cf. Le Totalitarisme, textos escolhidos e apresentados por Points Seuil, Ensaios, 2001, 928 p.

[38] Léopold Durand, “La grande conspiration contre la Russie”, Cahiers du Communisme, n° 10, Outubro de 1947, p. 1060-1069.

[39] Michel Bozon e Anne-Marie Thiesse, “La représentation de l’histoire chez ceux qui la subissent: thématisation et mythification”, Manuels d’histoire et mémoire collective, colóquio 23-24-25 de Abril de 1981, Universidade de Paris VII, multi., 10 p. Publicado numa versão aumentada em History and Anthropology, 1986, vol 2, pp. 237-259, com o título The collapse of memory: the case of farm workers.

[40] Cf Les protocoles des sages de sion, introduction à l’étude des Protocoles, un faux et ses usages dans le siècle, de Pierre-André Taguieff, Berg international, 1992. Não se pode reduzir, como tende a fazer Taguieff, a audiência da visão conspiratória da história aos efeitos de “sedução” que ela exercia pelo seu simplismo, o seu maniqueísmo, etc., sem se interrogar simultaneamente sobre os mecanismos sociais que estão na origem dessa sedução. Daí as nossas formulações.

[41] Hannah Arendt chamou a atenção para esta visão conspiratória e para as analogias que juntam a denúncia dos judeus e dos trotskistas: “La fiction des Protocoles était aussi appropriée que celle d’une conspiration trotskiste” [“A ficção dos Protocolos era tão adequada como a ficção de uma conspiração trotskista”, D. Quixote, 2004] (p. 88), Le système totalitaire, Seuil, 1972.

[42] Erik Neveu, L’idéologie dans le roman d’espionnage, PFNSP, 1985 e “Les miroirs troublants de la ‘soviétologie’ spontanée”, Politix, n° 18, 1992.

[43] Alain Dewerpe, Espion, Gallimard, 1996. A hermenêutica críptica “apoia-se num conjunto de pressupostos cruzados: existem, para além dos fenómenos evidentes, factos secretos que fornecem uma explicação do político; estes factos são o produto de um plano praticado por atores ocultos; o espião é a figura privilegiada do exercício desse poder escondido” p. 97.

[44] Roger Garaudy, Une littérature de fossoyeurs, Editions sociales, 1947 e Jean Kanapa, Le traître et le prolétaire, 1950.

[45] Cf Guillaume Malaurie, com a colaboração de Emmanuel Terré, L’Affaire Kravchenko, Paris, Robert Laffont, 1982.

[46] Cf, Emile Copfermann, David Rousset, une vie dans le siècle, Plon, 1991, no qual é relatado o combate de David Rousset.

[47] Etienne Fajon, Relatório ao CC de 26 de Março de 1952, Arquivos do CC do  PCF, 1 AV 45/2069.

[48] As intervenções foram publicadas em Mésaventure de l’antimarxisme. Les malheurs de M. Merleau-Ponty, avec une lettre de G. Lukacs, Paris, Editions sociales, 1956.

[49] Bernard Pudal, “La seconde réception de Nizan (1960-1990)”, em “Intellectuels engagés d’une guerre à l’autre”, Les Cahiers de l’IHTP, n° 26, Março de 1994.

[50] Sobre o caso Nizan pós-guerra, cf. Jean-François Sirinelli, Intellectuels et passions françaises, Fayard, 1990, p. 154 e seguintes. Para Henri Lefebvre a ideia de traição teria inspirado todos os livros de Nizan, o que não é falso na medida em que Nizan explora, na sua obra, os efeitos da mobilidade social ascendente, frequentemente vivida com culpabilidade e mal-estar.

[51] Para esta passagem cf. Bernard Pudal, Prendre Parti, pour une sociologie historique du PCF, pp. 227-235, PFNSP, 1989.

[52] Sobre estas questões cf. l’article de synthèse de Brigitte Studer, “La femme nouvelle” dans Michel Dreyfus et al., Le Siècle des communismes, Editions de l’Atelier, 2000, p. 377-387.

[53] Pierre Bourdieu, “La rhétorique de la scientificité” em Ce que parler veut dire, Fayard, p. 231.

[54] Cf. o estudo de Annie Kriegel sobre o PCF e Léon Blum, “Une haine fratricide”.

[55] Nada nos mostra isso melhor do que os debates que, hoje, podem parecer um tanto surrealistas, no seio das instâncias e redes do PC Chinês que ocorreram em 1942, em que um dos desafios é a assimilação de grupos de intelectuais: “Mao convida então os intelectuais a “submeterem-se a uma refundação longa e mesmo dolorosa” lembrando a este respeito a sua própria experiência de antigo estudante que “acreditara perder dignidade ao realizar qualquer trabalho manual, como transportar as suas bagagens ao ombro”. Foi apenas quando se familiarizou com os operários e camponeses do exército revolucionário que começou a compreender que comparados com eles “os intelectuais não reeducados não estavam preparados; que os mais preparados ainda eram os operários e camponeses, mais preparados apesar das suas mãos encardidas e da lama pegada aos seus pés, do que todos os intelectuais burgueses e pequeno-burgueses” [55]. Na elaboração deste reportório de ação e de justificação por parte de Mao, reencontrado no momento da Revolução Cultural, o “trotskismo” é assim explicitamente convocado, nome misterioso de um novo mal chinês condenável.

Cf. Guilhem Fabre, Genèse du pouvoir et de l’opposition en Chine. Le printemps de Yan’an : 1942, L’Harmattan, 1990, p. 81.

[56] Pierre Bourdieu, Langage et pouvoir symbolique, Seuil, p. 256 (Pierre Bourdieu refere-se aqui a S. Cohen, Nicolas Boukharine, la vie d’un bolchevik, Paris, Maspero, 19079, p. 367-368 e 388.)

[57] Frédéric Monnier, Le complot dans la République. Stratégies du secret: de Boulanger à la Cagoule, La Découverte, 1998.

[58] Cf. a reedição do testemunho de Alfred Rosmer publicado em Preuves dans Agone, n° 26/27, 2002, «John Dewey, homme d’action» e «Autour de la commission Dewey», Cahiers Léon Trostsky, Julho de 1990, n° 42, bem como o n° especial «Les procès de Moscou dans le monde» dos Cahiers Léon Trotsky, Julho-Setembro de 1979.

[59] Sheila Fitzpatrick, opus citada, p. 292.

[60] Cf. Brigitte Studer, “L’être perfectible. La formation du cadre stalinien par le travail sur soi”, Genèses, nº 51, Junho de 2003, pp. 92-113.

[61] Carta de Kurella a André Marty de 4 Junho de 1939. Arquivos de Moscovo.

[62] Anne Simonin, artido «Trahir», Dictionnaire Critique de la République, Vincent Duclert e Christophe Prochasson, Flammarion, 2002, p. 1120-1125.

[63] Jean Bruhat, Il n’est jamais trop tard, Albin Michel, 1983, p. 85-86

[64] Cf. o inimigo do povo tal como o identifica Marc Angenot no discurso socialista do séc. XIX. Marc Angenot, L’ennemi du peuple. Représentation du bourgeois dans le discours socialiste, 1830-1917, in Discours social, Volume IV, Université Mc Gill, Montréal.

[65] Cf. Reynald Lahanque, Le réalisme socialiste en France, Thèse d’Etat ès Lettres, Nancy II, 4 volumes, 2002.

[66] Cf. para o que se segue Martine Poulain, “A Cold War Best-Seller: The Reaction to Arthur Koestler’s Darkness at Noon in France from 1945 to 1950” in Books Libraries, Reading & Publishing in the War, editado por Hermina G.B. Anghelescu and Martine Poulain, Library of Congress, The Center for The Book, 2001.

[67] “No seu opúsculo, Kanapa torna Koestler, antigo militante comunista, o arquétipo do renegado, um apologista da traição (…) A imagem do traidor, nesses tempos de glaciação estalinista e de cisma jugoslavo, é um grande clássico da retórica. Renaud de Jouvenel, por exemplo, publica sucessivamente “L’internationale des traîtres puis Tito, maréchal des traîtres à la Bibliothèque Française”, p. 187, em Gérard Streiff, Jean Kanapa, 1921-1978, “Une singulière Histoire du PCF”, volume I, L’Harmattan, 2001. A brochura de Kanapa é elogiada na imprensa comunista. Após 1956, a necessidade de lutar contra o “dogmatismo” conduzia Les Editions Sociales a propor eliminar Le traître et le prolétaire, assim como o seu ensaio sobre a Bulgária, La Bulgarie d’hier et d’aujourd’hui, 1953. Jeanine Verdès-Leroux, Le réveil des somnambules, Paris, Fayard, 1987, p. 53.

[68] Trotsky não tinha qualquer ilusão sobre o desejo de vingança que animava Estaline em relação a ele. Ele relata no seu Journal d’exil uma anedota segundo a qual Estaline teria declarado que “não existe maior volúpia do que apontar aos inimigos, preparar-se, vingar-se devidamente e depois ir dormir…” p. 96.

[69] Jean-Michel Berthelot, “É sem dúvida – refere J-M Berthelot- a mais poderosa tradução que conhecemos, já que é fortemente ativa em todas as situações de confronto “nós” e “eles”. O pensamento totalitário deu-nos belas ilustrações disso. Dado que só existe escolha entre amigo e inimigo, as relações endurecem e tornam-se transitivas ou transitivas inversas: o amigo do meu amigo é meu amigo; o amigo do meu inimigo é meu inimigo; o inimigo do meu amigo é meu amigo; o inimigo do meu do meu inimigo é meu amigo. O operador de falsidade joga de forma unilateral e omnipotente: um inimigo nunca será um falso inimigo, salvo acidental ou taticamente (como no caso do pacto Germano-soviético); inversamente, um amido será sempre suscetível de se tornar um falso amigo. A tradução das categorias vulgares da amizade e da hostilidade numa semântica binária constitui qualquer amigo num traidor potencial” em “ Le traître. Pensée binaire et catégories sociales ordinaires”, Recherches Sociologiques, 2001 2/3, p. 39-46.

[70] Pierre Laborie, L’opinion française sous Vichy. Les français et la crise d’identité nationale, 1936-1944, Seuil, 2ª edição, 2001, p. 64-65.

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