Manuel Resende, a insubmissão revolucionária do poema — 1948–2020

O poeta, activista político e militante da esperança, Manuel Resende, morreu hoje. Trouxe para a poesia o seu combate e levou a poesia para o quotidiano da militância revolucionária.

Manuel Resende, foto de Nuno Pinheiro no almoço comemorativo dos 45 anos da fundação da LCI

Em 2018, publicada uma antologia dos seus poemas (Poesia Reunida, Cotovia), pudemos observar uma continuada reinvenção no contar aos outros o que o mundo é, o que pode ser, como os seres humanos possuem a capacidade de se inquietar e dar corpo à libertação dos grandes e pequenos obstáculos para a felicidade. Lemos o Manuel Resende e facilmente nos descobrimos potenciais poetas de uma vida nova, um futuro inventado construído pelas nossas mãos e coração. Para Manuel Resende o comunismo, a revolução, acto permanente da inteligência criativa, tão pouco ocupa o espaço da utopia, é já realidade pelo poema. Luta de classes em versos de colectivizado vocábulo, estado absoluto e não privado de amar.
Nos anos 70, Manuel Resende foi fundador da Liga Comunista Internacionalista (LCI). Foi, aliás, autor das teses em discussão no I Congresso da organização que, em fusão com o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, evoluiria para a secção portuguesa da IVª Internacional e à criação do PSR, Partido Socialista Revolucionário. O legado do pensamento político de Manuel Resende é outra faceta valiosa que nos deve interessar conhecer.
Juntamente com outros poetas da mesma geração, muito em especial Manuel António Pina, no Porto, pelos anos 80 e 90, a arte tornou-se uma forma de sintetizar o mundo e de reagir. Arte, não só a que escrevia, aquela que lia a cada momento. Lia Kavafis a Pina e Pina respondia-lhe com Homero e Pessoa, recitavam José Mário Branco a passo com António Maria Lisboa. E todas essas referências apareceriam na poesia de ambos, como colagens de imagens, sons de antiquíssimos tambores ao lado, na guitarra de Sérgio Godinho.
Já neste século, esteve sempre imbuído de uma juventude irrequieta, impaciente, sem ruídos, sem interferências da banalidade ou das discussões de nada decidir. Aliás dizia que a poesia era demasiado rara para ser desperdiçada com porcarias. Mas como para Manuel Resende a vida em si mesma era um lugar mágico onde tudo o que importa era raro e desaconselhável de misturar com porcarias, a atenção crítica que tinha da política não era outra. Até porque a poesia não é estanque à política e o inverso é inadmissível.
O Manuel Resende morreu no início desta década. Da sua intervenção como militante trotskista, à poesia que tão pouco foi publicada, e tudo o que dele nos falta conhecer, sejamos capazes de nunca o esquecer. A ele e aos versos que intuiu, às teses políticas que elaborou e hoje parecem trazer luz sobre tanto do que vivemos, e guardar o seu exemplo no coração, ou espalhar o coração do seu exemplo! Exemplo no modo de vida, na arte como arma revolucionária, no ser-se comunista e por tudo isto, nada do que vive ser vão.

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