Rosa Luxemburgo e a Quarta Internacional

Breves notas sobre uma questão importante

Este é o segundo artigo que publicamos por ocasião do centenário do assassinato de Rosa Luxemburgo. Neste artigo, de 1935, Trotsky coloca a Quarta Internacional sob o signo dos “três L” (Luxemburgo, Liebknecht e Lenine) mas não deixa de apontar à revolucionária alemã “erros”. É também um artigo polémico contra “um alegado luxemburguismo”.

Actualmente, estão a ser feitos esforços, em França e não só, com vista a construir um alegado luxemburguismo para servir de trincheira aos centristas de esquerda contra os bolcheviques-leninistas. Esta questão pode assumir uma grande importância. Poderá ser necessário dedicar em breve um artigo mais aprofundado ao verdadeiro e ao alegado luxemburguismo. Aqui, apenas pretendo esboçar a questão nos seus aspectos mais essenciais.

Em diversas ocasiões, assumimos a defesa de Rosa Luxemburgo contra as grosseiras e estúpidas calúnias de Estaline e da sua burocracia. E continuaremos a fazê-lo. Ao fazê-lo, não obedecemos a quaisquer considerações sentimentais, mas aos princípios da crítica histórico-materialista. A nossa defesa de Rosa Luxemburgo não é, contudo, absoluta. As partes fracas das teorias de Rosa Luxemburgo foram claramente expostas em teoria e na prática. Os indivíduos do S.A.P. e os elementos aparentados (ver, por exemplo, o Spartacus francês, diletante e intelectual, produzindo “cultura proletária”, ou a revista dos estudantes socialistas publicada na Bélgica; por vezes, também, “L’Action Socialiste” belga, etc.), apenas se servem das partes fracas e das insuficiências que, em Rosa, não eram de modo algum preponderantes; generalizam e exageram essas fraquezas infinitamente e, com base nisso, constroem um sistema totalmente absurdo. O paradoxo consiste no facto dos próprios estalinistas, na sua nova viragem, se aproximarem em termos teóricos – sem o admitirem nem mesmo o compreenderem – das partes negativas e desfiguradas do luxemburguismo, sem falar dos centristas tradicionais ou dos centristas de esquerda do campo social-democrata.

De facto, é verdade que Rosa Luxemburgo opôs fervorosamente a espontaneidade das acções de massas à política conservadora da direcção social-democrata, particularmente depois da revolução de 1905. Esta oposição era absolutamente revolucionária e progressista. Rosa Luxemburgo compreendeu e começou a combater muito mais cedo que Lenine o carácter de travão do aparelho ossificado do partido e dos sindicatos. Tendo em conta o agravamento inevitável das contradições de classes, ela vaticinava sempre a inevitabilidade e a trajectória das instâncias oficiais. Neste contexto histórico geral, Rosa tinha razão, pois a revolução de 1918 era, precisamente, “espontânea”, ou seja, foi conduzida pelas massas apesar de todas as previsões e disposições das cúpulas do partido. Mas, por outro lado, toda a história subsequente da Alemanha comprovou largamente que apenas com a espontaneidade estamos longe de obter resultados; o regime de Hitler é um argumento demolidor contra a afirmação de que para além da espontaneidade não existe salvação.

A própria Rosa nunca se confinou à teoria pura da espontaneidade à maneira de Parvus que, mais tarde, trocou o seu fatalismo socialista-revolucionário pelo mais repugnante oportunismo. Ao contrário de Parvus, Rosa Luxemburgo dedicava-se a educar de antemão a ala revolucionária do proletariado e, tanto quanto possível, e a cativá-la em temos organizativos. Ela construiu, na Polónia, uma organização independente muito rígida. Poder-se-ia, quando muito, dizer que, na concepção histórico-filosófica do movimento operário de Rosa, a selecção prévia de vanguarda, em relação às acções de massa que se deveriam esperar, não obteve resultados; enquanto Lenine, pelo contrário, sem se entusiasmar com os prodígios de acções futuras, unia contínua e infatigavelmente os operários de vanguarda uns aos outros, ilegal ou legalmente, em organizações de massas ou em segredo, em células fechadas, através de um programa rigorosamente delimitado.

A teoria da espontaneidade de Rosa era uma arma salutar contra o aparelho anquilosado do reformismo. Virando-se por vezes contra o trabalho de Lenine no domínio da construção de um aparelho revolucionário revelava, em todo o caso de forma embrionária, aspectos reaccionários. Quanto à própria Rosa, isto só acontecia episodicamente. Ela era demasiado realista, no sentido revolucionário do termo, para retirar dos elementos da sua teoria da espontaneidade um sistema metafísico acabado. Na prática, ela própria minava essa teoria constantemente. Após a revolução de Novembro de 1918, ela encetou com paixão o trabalho de reunião da vanguarda revolucionária. Apesar da brochura que escreveu na prisão, mas não publicada, teoricamente muito fraca, sobre a revolução soviética, a obra seguinte de Rosa permite-nos concluir com certeza que ela se aproximava de dia para dia das ideias de Lenine, rigorosamente ponderadas, sobre a direcção consciente e a espontaneidade. Seria certamente também esta circunstância que a impediu de publicar o seu texto, utilizado mais tarde de forma tão vergonhosamente abusiva contra a política bolchevique.

Tentemos, porém, aplicar à nossa época a contradição entre as acções de massas espontâneas e o trabalho de organização consciente do objectivo. Que considerável dispêndio em forças e em devoção as massas trabalhadoras de todos os países civilizados ou semicivilizados não terão feito depois da guerra mundial! Não se encontra precedente semelhante em toda a história da humanidade. Nesta medida, Rosa Luxemburgo tinha totalmente razão contra os filisteus, os cabecilhas e os cretinos do conservadorismo burocrático «coroado de vitórias» e marchando a direito. Mas, precisamente, o desperdício destas energias incomensuráveis constitui um terreno favorável à grande depressão do proletariado e ao avanço triunfante do fascismo. Pode afirmar-se sem exagero: a situação mundial é determinada pela CRISE DA DIRECÇÃO DO PROLETARIADO. O campo do movimento operário ainda está bloqueado pelos resquícios poderosos das velhas organizações falidas. Depois das inúmeras vitórias e das desilusões, a grande maioria do proletariado europeu recolheu-se em si próprio.

A lição crucial a tirar, consciente ou semi-conscientemente, destas amargas experiências, é a seguinte: as grandes acções exigem uma direcção à altura. Para os assuntos correntes, os operários continuam a dar as suas vozes às antigas organizações. Apenas as suas vozes, de forma alguma a sua confiança. Por outro lado, depois do lamentável colapso da III Internacional, tornou-se muito mais difícil incitá-los a dar a sua confiança a uma nova organização revolucionária. É nisto, precisamente, que consiste a crise da direcção proletária. Cantar, nesta situação, um cântico monótono à glória das acções de massas relegadas para um futuro incerto, apenas com o propósito de se opor a uma selecção consciente de quadros para uma nova internacional, significa fazer um trabalho completamente reaccionário.

É este o lugar do SAP no processo histórico. Um SAPista de esquerda entre os da velha guarda pode, evidentemente, reunir as suas memórias marxistas para tentar estancar a maré do espontaneísmo, essa barbárie teórica.

Estas medidas de protecção meramente literárias não mudam nada ao facto de que os discípulos de um Miles, o inestimável autor da resolução de paz e autor não menos inestimável do artigo na edição francesa do “Boletim da juventude”, continuem a propagar os disparates espontaneístas mais vergonhosos nas próprias fileiras do SAP.

Portanto, as práticas políticas de Schwab (o especialista “em não dizer do que se trata” e do eterno consolo pelas acções de massa futuras e pelo “processo histórico” espontâneo) significam apenas a exploração táctica de um luxemburguismo realmente distorcido e expurgado. E na medida em que a “esquerda”, os “marxistas”, renunciam a atacar abertamente esta teoria e prática do seu próprio partido, os seus artigos anti-Miles adquirem o sentido de uma procura de um alibi teórico. E um tal alibi só é verdadeiramente necessário quando se participa num crime deliberado.

A crise da direcção proletária não pode, evidentemente, ser ultrapassada por uma fórmula abstracta. Trata-se de um processo extremamente demorado. Mas não de um processo meramente “histórico”, ou seja, condições objectivas da actividade consciente, mas de uma cadeia ininterrupta de medidas ideológicas, políticas e organizativas para unir os elementos melhores, os mais clarividentes do proletariado mundial sob uma bandeira sem mácula, de reforçar cada vez mais o seu número e a sua confiança em si próprios, de desenvolver e aprofundar a sua ligação com outras camadas mais amplas do proletariado, numa palavra: de devolver ao proletariado, numa nova situação extremamente difícil e repleta de responsabilidades, a sua direcção histórica. Os confusionistas da espontaneidade do mais recente modelo têm tão pouco direito de invocar Rosa como os miseráveis burocratas do Komintern têm de invocar Lenine. Deixando de lado o que é acessório e vencido pela evolução, temos pleno direito de pormos o nosso trabalho pela IV Internacional sob o signo dos “Três L.”, isto é, não apenas sob o de Lenine, mas também sob o de Luxemburgo e de Liebknecht.

Tradução de Paula Coelho

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