VENEZUELA: ISTO É GOLPE!

Declaração do coletivo de militantes da IV Internacional – Toupeira Vermelha

O golpe de Estado que está a ser orquestrado na Venezuela – com ingerência direta dos Estados Unidos da América – não nos deve surpreender. É aliás, apenas mais um, entre as múltiplas tentativas golpistas que a direita venezuelana, em complacência com os interesses imperialistas, tem vindo a entabular nos últimos anos.

Desde o momento em que a direita venezuelana se recusou a participar nas últimas eleições presidenciais – que decorreram a 20 de maio de 2018 e onde Nicolas Maduro foi reeleito – que se esperaria que a mesma orquestrasse uma nova tentativa de tomar o poder. Ficou claro, aliás nessa altura, que o objetivo da oposição que acusa Maduro de ditador, era agudizar os conflitos políticos e sociais entre o governo e o povo venezuelano, aproveitando-se (para não os acusar de a fomentarem) da crise económica do país. Ao mesmo tempo, seguiram promovendo falsas narrativas sobre a legitimidade democrática e eleitoral de um país que tem dos sistemas de eleição mais sofisticados do mundo, acusando as eleições de não serem democráticas, nem livres, apesar de terem concorrido 16 formações políticas. O problema, é que a oposição de direita na Venezuela tem pouca legitimidade para contradizer um sistema eleitoral que também os elegeu. Mas isso pouco importa na narrativa que é transmitida para fora, pois o que interessa é traçar um quadro onde Maduro é a causa de todos os males económicos e sociais. Só através da demonização da figura de Maduro é que figuras opacas como Juan Guaidó se poderiam legitimar sem o tal voto livre e direto.

É também através da demonização da figura de Maduro que se legitima a ingerência colonial sobre a Venezuela e assim estender os braços de Leviatã à maior reserva de petróleo do mundo, reserva essa pela qual salivam os capitalistas negacionistas na presidência dos EUA.

A crise de um país tão rico em petróleo, como é o caso da Venezuela, não se explica na imagem de um presidente-ditador. É necessário olhar a forma como essa crise foi ativamente construída pela queda do preço do petróleo no mercado internacional – no seio de uma economia sem capacidade e estrutura para a autosuficiência produtiva – e como essa crise foi explorada pela oligarquia venezuelana, que o que sempre procurou não foi a sua resolução, mas a sua agudização, através das solicitações e apoios às sanções económicas e quebras de acordos comerciais internacionais.

A acusação de que Maduro é um ditador sem legitimidade democrática é a mentira necessária para que Juan Guaidó se possa autoproclamar presidente interino. A mentira perversa tem ainda uma outra função; a de empurrar uma alternativa de esquerda a Maduro para uma defesa do mesmo, criando um clima político de que “não há alternativa” que não seja a direita neoliberal representada por partidos como Vontade Popular (partido de Guaidó e Leopoldo Lopéz). A esquerda possível encontra-se na situação impossível de construir uma alternativa entalada entre a burocracia do governo e o imperialismo capitalista da oposição.

A mentira necessária ganha, no campo do absurdo, uma outra sonoridade. É que a tal constituição “inconstitucional” da Assembleia Nacional Constituinte (na verdade legitima e enquadrada na constituição bolivariana) e a eleição “não democrática” do presidente (realizada por voto livre e onde participaram mais de 9 milhões de pessoas) não chegou para a direita tomar o poder. Foi necessário que o governo dos Estados Unidos da América reconhecessem um presidente, esse sim não eleito (como aliás é costume neste país), para a direita venezuelana colocar em marcha o seu novo plano de golpe. É que apesar de as notícias só terem chegado agora, Guaidó já anda há umas semanas a tentar que alguém o escute no seu grito golpista. E agora chegaram os amigos Trump, Bolsonaro e Grupo de Lima (agora sem o México).

Sim, é mesmo golpe Senhor Ministro!                                                                            

Apesar do que possa dizer o ministro Santos Silva, sim isto é golpe. Mais absurdas são as suas declarações que as eleições venezuelanas do último ano são inconstitucionais e impossíveis de serem reconhecidas pela comunidade internacional, como se coubesse à comunidade internacional estas escolhas e não ao povo venezuelano. A sua posição é tão absurda e irresponsável, que o mesmo caí em contradição ao reconhecer que as eleições “não democráticas” não foram contestadas por ninguém.O coletivo Toupeira Vermelha, coletivo português de militantes da 4ª internacional, posiciona-se assim na condenação da tentativa de golpe de Estado e da ingerência imperialista dos Estados Unidos da América, no seu intento de violar os direitos democráticos e a soberania nacional da Venezuela. Repudiamos em absoluto as declarações do representante do governo português, que consideramos absurdas, coloniais e submissas ao imperialismo norte americano.

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