Quem são os homens armados que ameaçam a revolução pacífica do Sudão?

À medida que são conhecidos mais factos, o número de mortos dos ataques governamentais contra os manifestantes no Sudão sobe para mais de uma centena. Damos a conhecer um relatório da rede de solidariedade sindical britânica MENA feito antes do massacre. Mostra quem são estes atacantes a mando do regime militar e os financiamentos europeus que recebem.

Foto de Hind Mekki/Flickr

Desde dezembro de 2018 que uma mobilização de massas de pessoas comuns que exigem uma mudança democrática e pacífica atingiu o Sudão. O ditador Omar el-Bashir, que tinha governado o Sudão durante os últimos 30 anos, foi derrubado pelos seus generais, que depois tentaram ficar com o poder para si próprios através de um Conselho Militar Transitório.

O regime de el-Bashir era conhecido pelo largo número de agências militares e de segurança nas quais o ditador se apoiava para reprimir oponentes e fazer as suas guerras racistas contra o povo do Darfur e dos montes Nuba. Contudo, o financiamento e apoio técnico do Reino Unido e dos governos da União Europeia continuou a fortalecer os corpos de segurança e militares do Sudão que são responsáveis por abusos dos direitos humanos numa escala massiva. O Processo de Cartum, também conhecido como a Iniciativa da Rota de Migração do Corno de África, envolve o financiamento das forças de segurança e das agências de fronteira da região, com o Sudão a receber à volta de 215 milhões de euros apenas em 2017.

Forças de Apoio Rápido

Comandadas pelo general Mohamed Dagalo, conhecido como Hemedti, as FAR foram formadas a partir das milícias Janjaweed que tinha cometido crimes de guerra no Darfur, incluindo massacres massivos de civis e violações em massa.

As FAR também têm combatido no Iémen sob o comando da coligação liderada pelos sauditas e está fortemente envolvida no policiamento de fronteira.

Como parte do Processo de Cartum, a União Europeia estabeleceu um Centro Operacional Regional, ou ROCK, que tem o papel de coordenar as atividades das forças de segurança do leste de África, incluindo as do regime sudanês, com as agências de migração europeias. Dirigido por pessoal de segurança britânico, francês e italiano, o Centro está concebido para apoiar as diferentes forças de segurança nacionais na região, incluindo as FAR do Sudão. Investigadores e organizações dos direitos humanos têm provas que as FAR estão envolvidas tanto em tráfico de pessoas quanto em ataques brutais contra migrantes que tentam sair do Sudão. As FAR têm atacado repetidamente as concentrações de massas organizadas em Cartum e noutros pontos do Sudão.

Serviço de Segurança e Inteligência Nacional

O SSIN opera os seus próprios centros de detenção, nos quais a tortura e outros abusos são frequentes, de acordo com as organizações dos direitos humanos e testemunhos de sobreviventes. As forças do SSIN também atacaram repetidamente as concentrações, usando munições verdadeiras e gás lacrimogéneo nos assaltos a manifestações na capital Cartum, tendo atropelado mortalmente um manifestante em El Obeid e matado a tiro um protestante em Zailengi.

O diretor do SSIN, Salah Gosh, demitiu-se pouco depois da retirada de Omar el Bashir do poder. Quando procuradores quiseram interrogá-lo sobre uma conta bancária de 801 milhões de libras, os seus guardas bloquearam a sua detenção.

Forças Armadas

As figuras chave das Forças Armadas tomaram o poder a 11 de abril das mãos de Omar el Bashir, estabelecendo um Conselho Militar Transitório. Quando os protestos cresceram, os manifestantes testemunharam que soldados rasos e oficiais das baixas patentes protegeram-nos algumas vezes dos ataques das forças das FAR e do SSIN. Contudo, as tropas também usaram de força para com os manifestantes.

Um dia depois de ter anunciado a sua concordância com elementos centrais de um acordo de transferência de poder para um governo civil liderado pelas Forças da Liberdade e da Mudança da oposição, o CMT suspendeu as negociações e mandou soldados para limpar as barricadas, usando “extensivamente” tiros, segundo a Reuters, no dia 15 de maio.

Milícias partidárias

Os grupos da oposição relataram que milícias obscuras ligadas ao partido do poder, o Partido do Congresso Nacional, têm estado envolvidas em ataques às concentrações, incluindo um ataque mais central à concentração de Cartum em 13 de maio. De acordo com informação recebida pelo MENA através do Sindicato dos Médicos do Sudão, os atacantes usaram munições reais de pistolas, espingardas e metralhadores, gás lacrimogéneo e barras de metal. Pelo menos seis pessoas foram mortas.

Texto de MENA, uma rede de ativistas de sindicatos britânicos em solidariedade com os trabalhadores do Médio Oriente e Norte de África, que apela a ações de solidariedade internacionalista para com os manifestantes no Sudão.

Versão original aqui.

Tradução de Carlos Carujo

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