OS TROTSKISTAS DA ESTREMADURA: A ESQUERDA COMUNISTA E O POUM

Quando, após a expulsão de Trotsky da União Soviética, em janeiro de 1929, o trotskismo se constituiu como um movimento político independente, a nível internacional, e foi criada a chamada Oposição Comunista de Esquerda numa conferência realizada em Paris em abril de 1930, surgiram organizações trotskistas em toda a Europa. De facto, desde o início dos conflitos que, na URSS, após a morte de Lenine, colocaram em confronto Stalin contra Trotsky, este tinha apoiantes em todos os países. E Espanha não foi exceção. Aqui, emergia a ditadura de Primo de Rivera, numa altura em que o Partido Comunista da Espanha se encontrava numa grave crise e em que parte dos seus militantes e líderes – como aconteceu com outros partidos e sindicatos de esquerda – estavam no exílio. E foi precisamente no exílio, mais concretamente em Liège (Bélgica), onde, em fevereiro de 1930, se realizou a primeira Conferência Nacional da Oposição Comunista Espanhola, impulsionada pelo líder da Federação Comunista da Biscaia, Francisco García Lavid (que assinou o seu artigos com o pseudônimo de Henri Lacroix).

Estamos em vésperas da proclamação da Segunda República, que ocorreu em 14 de abril de 1931, numa altura em que ocorria o regresso em massa de quase todos os exilados e ao mesmo tempo se estavam a reorganizar as forças sociais e políticas. Neste contexto – e também com a chegada à Espanha de importantes dirigentes, como Andreu Nin, que chegou a Barcelona após nove anos de permanência na URSS – quando foi proclamada a Segunda República, formou-se a Oposición Comunista de España, que em março de 1932 passou a designar-se Izquierda Comunista de España. A partir da adesão pessoal dos membros expulsos do Partido Comunista, começaram a ser criados setores da Oposição em Madrid, Astúrias, País Valenciano, Andaluzia, Catalunha e Estremadura.

Na Estremadura, apareceu a figura proeminente de Luis Rastrollo, uma personagem muito ativa, que tinha nascido em Fuente del Arco em 1908 e que se instalou em Llerena, uma das localidades da Estremadura onde o trotskismo alcançou maior implantação. Aparentemente, Rastrollo fez parte da primeira direção que a oposição comunista teve em Espanha e participou na sua II Conferência realizada em Madrid em 7 de junho de 1931. Nela apareceu com o pseudónimo de L. Siem, em representação da Estremadura, onde deu conta da situação em que se encontrava a região por si representada. Cedo organizou os camponeses da região de Llerena, o que é confirmado pela informação que apareceu na revista “Comunismo”, em outubro de 1932, nestes termos:

“O camponês, em Badajoz, é explorado de maneira muito mais bárbara que qualquer outro trabalhador espanhol. Adormecido pelo socialismo, o camponês da Estremadura não tinha despertado para a luta de classes até há muito pouco tempo. Mas ansiando por pão e trabalho, os camponeses de Badajoz não podem assistir ao passar do tempo, deixando-se morrer de fome; estão dispostos a defender o seu direito à vida, seja como for. (…) Apesar disso, os camponeses de Llerena, Berlanga, Maguilla, etc. não estão dispostos a passar fome perante a perspetiva de um inverno que se apresenta com contornos verdadeiramente trágicos. Nestas localidades, os camponeses agem sob a influência direta da Oposición Comunista. Todas as organizações camponesas do distrito de Llerena têm na sua direção apenas elementos da oposição. Todo o ódio da burguesia e seus servidores é dirigido contra os nossos camaradas e principalmente contra o nosso camarada Luis Rastrollo, que colocou todo o seu entusiasmo revolucionário ao serviço dos explorados na Terra.”

De facto, nesse ano de 1932, Rastrollo promoveu uma greve camponesa que o levou à prisão, num momento em que aprovada a Lei de Reforma Agrária, a sua aplicação foi realizada muito lentamente e não só não resolveu o acesso dos camponeses às suas terras, como também não resolveu a questão do desemprego. Os conflitos agrários que ocorreram em Llerena ao longo de 1932 e também nos anos seguintes foram certamente muito importantes e violentos, como estudou José Hinojosa Durán em Um episódio original do movimento operário da Extremadura: o núcleo trotskista de Llerena durante o II. República (1931-1936).

Tanto que em fevereiro de 1933 “os nossos camaradas Rastrollo, Martín, Fuentes e Gallarín estão há sete meses na prisão de Fuente de Cantos, na província de Badajoz, acusados apenas de serem os líderes de uma greve em que os camponeses se limitavam a pedir trabalho para os outros “(Comunismo, fevereiro de 1933). A confirmação de que a sua atividade tinha afetado os camponeses de Llerena e da região ainda era evidenciado no mês de abril do mesmo ano, quando se recordava que “os camponeses do distrito de Llerena estão cada vez mais firmemente ligados à Izquierda Comunista, que dirigiu com sucesso as suas lutas, e cujos militantes mais reconhecidos estão na prisão por defenderem resolutamente os seus interesses ”.

Além de Rastrollo, outros militantes da Oposição Comunista que dirigiam os trabalhadores de Llerena eram Eduardo Mauricio; Regino Marín, que organizou o sindicato de construção de Llerena; José Martín, membro do Comitê Central da Izquierda Comunista e presidente da Federação Local dos Sindicatos de Trabalhadores de Llerena; Felix Galan, camponês; Carlos Llarza, pseudônimo de Julián Gómez Sánchez, etc.

Outras localidades da região onde a Izquierda Comunista estava presente eram Maguilla, com cerca de vinte militantes em abril de 1932 e cerca de 50 um mês depois. Alguns militantes dessa população fizeram parte do comité que liderou as greves camponesas do verão de 1932. Em Fuente de Cantos, um membro da oposição, Pedro Corraliza Peguero, foi candidato por Badajoz nas eleições gerais de novembro de 1933, apresentado pelo Partido Comunista, e pouco depois foi julgado e condenado a três anos de prisão por um atentado contra autoridade. Outra população influenciada pela Oposição foi Berlanga.

Quando, em setembro de 1935, a Izquierda Comunista se uniu ao Bloque Obrero y Campesino para formar o Partido Obrero de Unificación Marxista (POUM), a imensa maioria dos militantes da Estremadura juntou-se ao novo partido, ignorando as orientações de Trotsky, que afirmavam que os militantes da oposição se deviam filiar no Partido Socialista, constituindo uma fração dentro deste. De facto, muito poucos deles aceitaram esse propósito e, no caso dos ex-trotskistas da Estremadura, apenas alguns casos específicos se enquadraram nos planos de Trotsky.

Certo é que com o novo partido houve um aumento na militância. Se no momento da constituição do novo partido em Llerena havia 122 militantes, poucos meses depois, no início do levantamento militar em julho de 1936, havia cerca de 230. Isto é explicado em grande parte porque após as eleições da Frente Popular (fevereiro de 1936) o POUM de Llerena organizou uma comunidade agrária de 76 800 m². Os mesmos militantes de Llerena explicaram assim, nas páginas do jornal do POUM, La Batalla, em 5 de junho de 1936:

“Depois de trabalhar a parcela que nos correspondeu individualmente, trabalharemos a nossa secção. Fizemos as tarefas preliminares rapidamente. Primeiro, limpámos a terra para pousio, trabalho feito voluntariamente pelos nossos militantes. Os que tinham juntas de bois facilitaram a tarefa e os restantes usaram as ferramentas. O cultivo foi difícil porque a terra era destinada a pastagem. “

De facto, parece que, à época de fundação do POUM, se acreditarmos em Jean Rous, um trotskista francês que veio a Espanha em setembro de 1935, como resultado do processo de unificação que estava a realizar, havia na Estremadura um total de 400 militantes, e acrescentou no seu relatório que “esse número parece ser diminuto se levarmos em conta que, por razões políticas, houve nos últimos tempos um reagrupamento de militantes. Na Estremadura (no raio de Llerena) os nossos camaradas têm uma real influência de massas na vida política e profissional da região. Os sindicatos de trabalhadores da terra, artesãos (padeiros, sapateiros) estão sob sua direção. “

O surgimento da Guerra Civil alterou a situação muito rapidamente. Embora no início Llerena estivesse sob o controle da República, os militares revoltosos perante o avanço desde a Andaluzia decidiram conquistar Llerena pelo interesse estratégico da localidade e, de facto, no início de agosto de 1936, apesar da resistência dos milicianos, a cidade terminou sob o controle dos militares. A repressão foi intensa. Fala-se de “um mínimo de 440 pessoas que morreram em Llerena ou que, sendo de Llerena, morreram noutras localidades por causa da guerra e da ditadura. Destes, 330 foram resultado da entrada das tropas franquistas e da subsequente repressão, à qual devemos acrescentar os prisioneiros republicanos mortos na cadeia ou fuzilados” (Ángel Olmedo Alonso: De la esperanza revolucionaria a la fosa común. Represión franquista en el caso de Llerena (Badajoz), en El genocidio franquista en Extremadura, publicado en Memòria Antifranquista del Baix Llobregat, nº 8, 2012). Sabemos que dos 230 afiliados que o POUM tinha na população, mais de 50 morreram na repressão do início da guerra, entre outros José Martín Rafael, que foi baleado em Badajoz, no Campo de San Juan.

Tampouco se salvou Luis Rastrollo, mas neste caso não foi fuzilado na Estremadura, mas na Galiza. Aquele que foi, sem dúvida, o líder mais destacado da Esquerda Comunista e do POUM de Llerena, desde 1935, antes do início da guerra, foi designado para organizar a Federação Galega do POUM e de facto organizou o POUM da Galiza criando diferentes secções em Santiago de Compostela, Corunha e outras cidades galegas. Residente em Santiago, foi preso no começo da guerra, julgado por um tribunal militar e fuzilado em 3 de dezembro de 1936.

Outros líderes conseguiram salvar-se, passar para o campo republicano e, depois da guerra, exilar-se em França. Mas a presença, primeiro do trotskismo e depois do marxismo revolucionário representado pelo POUM, não conseguiu consolidar-se na Estremadura, embora, certamente, Llerena tenha acabado por ser uma referência para muitos dos militantes do POUM que acabaram indo para o exílio.

Pelai Pagès i Blanch (Universidade de Barcelona)

Texto publicado no site https://www.elsaltodiario.com/

Tradução de António Rodrigues

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