O Congresso de Fundação da Quarta Internacional

A sessão plenária do Congresso de Fundação teve lugar num único dia, 3 de Setembro de 1938, no pavilhão-celeiro pertencente a Alfred Rosmer em Périgny nos arredores parisienses – ainda que, por razões de segurança, se tenha dito durante algum tempo que tinha tido lugar em Lausanne.

A necessidade de uma nova internacional era quase unânime nas fileiras da Oposição Internacional desde 1933. Uma “Carta Aberta em defesa da IVª Internacional” foi publicada, por insistência de Trotsky, em 1935. Mas o falhanço das tentativas de reagrupamento com organizações como o POUM ou o Secretariado de Londres, e as dificuldades das próprias organizações bolcheviques-leninistas tornaram-se obstáculos à sua proclamação na Conferência pela Quarta Internacional de Julho de 1936, igualmente com o argumento de que a esta nova internacional faltava um partido de massas e que a decisão seria incompreendida. Será preciso esperar pela Conferência de 1938 para que o passo seja dado.

Um congresso preparado durante vários meses

Para o próprio Trotsky, “a realização desta conferência representa um grande sucesso. Uma tendência revolucionária intransigente, submetida a perseguições que sem dúvida nunca nenhuma outra tendência política sofreu, mostrou de novo a sua força.”

Os delegados representando as organizações de onze países – Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha, União Soviética, Itália, Brasil, Polónia, Bélgica, Holanda e Grécia – proclamaram o “Partido mundial da revolução socialista”.

O relatório do congresso cita como filiadas as organizações dos países seguintes: África do Sul, Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, China, Cuba, Espanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Grécia, Indochina, México, Noruega, Holanda, Polónia, Roménia, São Domingo, Suíça, Checoslováquia, União Soviética, Uruguai.

O congresso foi preparado, durante vários meses, por um trabalho prévio em comissão, nas condições de repressão severa do movimento, especialmente os assassinatos de Léon Sedov – filho de Trotsky – em Fevereiro e de Rudolf Klement, secretário do movimento em Julho. A morte deste, é explicado na minuta, impede a difusão ao Secretariado Internacional do relatório que ele preparava, tendo todos os seus papéis desaparecido na altura do seu assassinato.

Adopção do “Programa de Transição”

Contudo, no seu relatório introdutório, Vilain (o francês Pierre Naville) insiste nos progressos reais no plano político desde a Conferência de 1936, especialmente pela intervenção política das secções. Cita como acontecimentos marcantes os Processos de Moscovo, as Frentes Populares em França e em Espanha tanto quanto a invasão da Etiópia pela Itália e da China pelo Japão. Sublinha, pelo contrário, que ao nível organizativo o Conselho Geral não conseguiu funcionar devido à dispersão geográfica dos seus membros e que o trabalho teve de ser assumido pelo Secretariado Internacional.

O texto mais importante apresentado ao congresso é o de Trotsky, o Programa de Transição. A discussão deste texto foi divida em três pontos: a questão dos sindicatos, especialmente as greves com ocupação de fábrica a propósito das emendas propostas pelos polacos, a questão russa, especialmente a caracterização da burocracia a partir de uma emenda dos americanos e as questões da guerra e de Espanha.

O projecto é adoptado com 21 votos a favor e um contra (o de Yvan Craipeau que, depois de ter continuado a militar na clandestinidade durante a guerra, deixará a Internacional em 1948).

Partido Mundial da revolução socialista”

O projecto de estatutos que devia delimitar a Quarta Internacional a seguir aos anos do “movimento pela Quarta Internacional” e o debate sobre a oportunidade ou não de a declara não poderam ser preparados devido ao desaparecimento de Klement. Um esboço é contudo discutido e adoptado, proclamando desta forma a fundação da “IVª Internacional (Partido Mundial da revolução socialista)”. Os delegados polacos não estão de acordo com esta proclamação da Internacional mas afirmam a sua lealdade e comprometem-se a aplicar as decisões.

Para além destes dois textos, o Congresso discute uma “Resolução sobre a luta de classes e a guerra no Extremo Oriente”, um texto sobre “O papel mundial do imperialismo americano” e uma série de resoluções sobre situações particulares nos diferentes países, especialmente uma resolução bastante detalhada sobre as tarefas da secção francesa. Dirige-se igualmente uma carta a Léon Trotsky e apela-se à organização da solidariedade internacional especialmente com a classe operária espanhola.

A Conferência produz igualmente uma declaração sobre a questão da juventude que afirma que “apenas o entusiasmo e o espírito ofensivo da juventude podem assegurar os primeiros sucessos da luta”. E continuando: “Esta dirige-se a todas as nossas organições de jovens, a todas as nossas secções para lhes dizer: só poderemos ganhar a juventude trabalhadora para a Quarta Internacional se falarmos a sua linguagem, se exprimirmos as suas aspirações, se lhe dermos uma organização que seja a sua.” Uma conferência das organizações de jovens juntando seis países é organizada no domingo 11 de Setembro em Paris.

Penelope Duggan

(tradução de Carlos Carujo)

Este artigo faz parte de um conjunto que foi publicado originalmente no Semanário L’Anticapitaliste nº 442 em 13/09/2018 sobre a fundação da Quarta Internacional

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