4.ª Internacional: 80 anos de luta pelo socialismo

A 4.ª Internacional mantém-se uma organização minoritária, de escassa influência na trajectória de destruição global que vivemos. Mas é seguramente um espaço do lado certo da história.

Texto de Sérgio Vitorino publicado no Jornal Público em 17 de Dezembro de 2018

Em 1938, há 80 anos, um punhado de militantes comunistas juntou-se num celeiro dos arredores de Paris, em Périgny, para fundar a Quarta Internacional. Ao contrário das anteriores internacionais, esta organização que afirmava ter como objectivo a criação do “partido mundial da revolução socialista”, dava os seus primeiros passos num tempo de perseguições e declínio da capacidade do proletariado para tomar a iniciativa e responder ao fascismo ascendente na Europa. Dois meses antes, Rudolf Klement, responsável pelo secretariado do congresso tinha sido assassinado, Léon Sedov, filho de Trotski e elemento central na sua preparação, também.

Nesse congresso, com delegados de 10 países europeus e do Brasil, é aprovado o Programa de Transição com 21 votos a favor e um voto contra.

O texto originalmente redigido por Trotski – “As agonias do capitalismo e as tarefas da 4.ª Internacional” – tornou-se uma referência teórica fundamental para todo o movimento trotskista posterior ao romper com a perspetiva de programa mínimo reformista e de programa máximo abstratamente socialista. O Programa de Transição sugere partir do nível de consciência das massas proletárias para o enfrentamento com a lógica capitalista através de um conjunto de reivindicações muito concretas. Era o caso da abolição do segredo comercial (ou bancário), da escala móvel de salários e de horas de trabalho, ou da reivindicação de aumentos brutos iguais para todos. Trata-se de uma proposta de metodologia para intervir na consciência gradual das condições da luta de classes e poder fazer pesar na balança a emancipação de uma classe que só poderia ser obra do proletariado e das pessoas exploradas do mundo inteiro.

Em 1938, a república espanhola estava perdida às mãos do fascismo, Hitler lançava já a sua sombra sangrenta na Europa, a teoria do “socialismo num só país” condenava o movimento comunista ao desalento e à derrota eminente, Estaline tinha já dizimado toda a oposição de esquerda e perseguia os seus militantes, as potências europeias claudicavam numa estratégia suicida onde a revolução russa e a sua capacidade de contágio eram ainda o seu principal pesadelo.

Trotski é assassinado dois anos depois no México, e os militantes da 4.ª Internacional – perseguidos à esquerda pelo estalinismo e à direita pelos fascismos europeus ascendentes – procuram intervir junto do proletariado alemão mobilizado nas tropas de ocupação. A propaganda desses tempos regista as tentativas (algumas bem-sucedidas) de apelar à deserção dos soldados alemães, libertando campos de prisioneiros franceses ou polacos, irmãos de classe e na exploração. A este grupo de agitadores, com vitórias significativas, apesar de insuficientes para conter a vaga nacionalista, pertenceu Ernest Mandel, mais tarde dirigente e figura teórica incontornável da 4.ª Internacional, proscrito em grande parte das democracias do pós-guerra.PUB

Nos anos 90 do século passado, era Cavaco Silva primeiro-ministro, para um jovem que entrava no ensino superior público a consciência política estruturou-se com a contestação à lei do aumento de propinas. Era claro para nós, nessa altura, que o Estado se transformava na medida em que o projecto neoliberal desarticulava os sistemas públicos e queria transformar o ensino, de direito universal, em forma infalível de negócio. Foi quando entrei no Partido Socialista Revolucionário, sucessor da Liga Comunista Internacionalista e secção portuguesa da 4.ª Internacional, do qual já tinha referência pelo assassinato de um dos seus dirigentes, o sindicalista José Carvalho, às mãos de neonazis em 1989, e pela brilhante campanha eleitoral de 1991 – a primeira da antisistémica “ovelha negra”. No seu percurso português, a jovem organização fundada na clandestinidade em 1973 viveu intensamente a revolução dos cravos em todos os seus momentos. Ocupações, comissões de trabalhadores e de moradores, “Soldados Unidos Vencerão”, “Nem mais um só soldado para as colónias!”, o poder popular que durante um período breve pareceu ser a promessa de uma outra sociedade, a hipótese socialista a espreitar no território mais ocidental da Europa continental. Foi onde me cruzei com algumas das pessoas iniciais deste percurso: João Cabral Fernandes, Alfredo Frade, Francisco Louçã, Helena Lopes da Silva, Ana Campos, Manuel Graça e tantas outras pessoas. Foi onde encontrei espaço para entender que a revolução proletária não se faz sem uma alternativa à sociedade patriarcal, que opressões como as de género, de orientação sexual ou o racismo não são questões menores da emancipação que imaginamos, mas antes instrumentos da fratura de classe. Que o internacionalismo ganhou um novo alento com a revolta zapatista em Chiapas, ou dez anos mais tarde com os grandes movimentos alterglobalização, que o militarismo é a religião escondida do imperialismo que depois da queda do muro de Berlim acumula lucros obscenos nas guerras que promove. Que o dogma é inimigo de um pensamento e prática revolucionários, capazes de aprender a cada nova experiência revolucionária, e sobretudo com as suas derrotas.

80 anos depois, a 4.ª Internacional mantém-se uma organização minoritária, de escassa influência na trajectória de destruição global que vivemos. Mas é seguramente um espaço do lado certo da história e onde a globalização encontra o desejo internacionalista fiel à primeira geração de comunistas e que nos permite ainda hoje ter a ousadia da esperança na alternativa socialista.

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