ASCENSÃO E QUEDA DA “NOVA POLÍTICA”

Neste texto, Isidro López e Brais Fernández analisam os mitos do Podemos, as suas escolhas organizativas verticalistas, institucionalização e burocratização, o seu papel na restauração da legitimidade da política da situação e a sua atual crise política.

Foto de Podemos Granada/Flickr

O Podemos foi a resposta política à janela de oportunidade aberta pelo 15M. Precisamente na medida em que incorporou a herança política dessa revolta, o Podemos – porta-estandarte desse espaço político relativamente homogéneo que é a nova política – deu vida à possibilidade de uma transformação digna de tal nome num ambiente espanhol e europeu abalado pela crise económica.

Esse fortíssimo descontentamento social empurrou o Podemos ao seu ponto alto nos meses entre maio e outubro de 2014. Precisamente nesse mês, no primeiro congresso de Vistalegre, foi decidido seguir um modelo verticalista de organização, com a desculpa da iminência de uma rápida vitória eleitoral. A partir desse momento, o Podemos foi perdendo a liderança da situação política à medida que se foi integrando no quadro institucional espanhol e na lógica da reconstrução do Estado.

Em tempos de colapso da ordem política, não ter uma estrutura na qual tanto a informação como o poder circulem e se redistribuam entre cima e baixo, leva a que as ferramentas de marketing político, os media, as sondagens, sejam o único vínculo com os “representados”, considerados como uma soma de itens, de botões simbólicos a pulsar para gerar um vínculo afetivo, em vez de um sujeito político autónomo. Não é novo este atalho que a esquerda mainstream usa para saltar a fastidiosa etapa de construção de uma organização com capacidade de definir horizontes estratégicos.

Sem esse horizonte estratégico de transformação, que só poderá surgir de baixo para cima, as vicissitudes do Podemos enquadraram-se num tacticismo permanente, numa sucessão de coelhos tirados da cartola e de efeitos especiais que mantiveram a tensão viva durante os dois primeiros anos. E, entre cada coelho, uma inexorável viagem ao espaço onde os media e os estudos de opinião registam a sua maior concentração de itens, o “centro político”. Esse lugar mitológico, onde habitam os deuses dos politólogos, e que, em grande parte, é produzido pelos meios de comunicação e, em menor escala, pelas sondagens.

Dizer “centro político” é o mesmo que dizer “classe média” e dizer “Estado”, o lugar onde tradicionalmente se dava a reprodução do regime e hoje se encontra corrompido no mundo capitalista. Mas, claro, por pior que seja, ainda recebe de braços abertos o partido cuja missão era liquidá-lo. Esta viagem ao centro acabou por jogar a favor do fim da conjuntura que o 15M abriu, porventura com a prostração ante o PSOE de Pedro Sanchez como momento de clímax da restauração e de anti-clímax do 15M. A invenção e consolidação de Pedro Sanchez e o regresso do PSOE ao governo foi o resultado final do ciclo do Podemos.

Intencionalmente incapaz de intervir nas forças sociais e económicas que estavam por detrás da sua rápida ascensão, o Podemos deu uma vantagem insuperável às elites espanholas e europeias nos seus planos de reconstrução. Face à mudança das políticas do BCE com a expansão quantitativa como motor de uma estabilização económica (e não recuperação), o Podemos não contava com os quadros teóricos e organizativos necessários para navegar num contexto com ventos cada vez mais fracos para o projeto.

Ninguém tinha considerado seriamente que tipo de estruturas organizativas deveria ter o Podemos para se fortalecer numa situação que apenas podia ser considerada como de impasse económico e de forma alguma como um novo e sólido ciclo de crescimento. A guinada para o Estado, baseada nas estratégias comunicativas do peculiar populismo tecnocrático praticado por Iñigo Errejón, e em larga medida por Pablo Iglesias, foi o único princípio estratégico e organizativo.

Mas também contribui para esta situação a renúncia em termos de análise e orientação sobre a decomposição das classes médias, e também, a situação de todo o espectro precário desde as velhas classes operárias aos imigrantes. De facto, o Podemos foi um fator importante para reorientar a crise da classe média para o compromisso com o Estado e a espera passiva por algumas migalhas de redistribuição, dois clichés clássicos dessa política que tendem mais a bloquear do que a acelerar o processo de construção de uma nova classe que surja das cinzas da classe média.

Isto provocou, necessariamente, que milhões de pessoas atraídas pelo ciclo 15M/Podemos fossem levadas nalgum momento à desfiliação e a um crescente sentimento de desencanto que, muito provavelmente, encontrará alguma forma de expressão política hostil com os lugares comuns do progressismo.

Sem uma bolha do tamanho de 1995/2007, o crédito e a dívida nunca estiveram perto de atingir as enormes quantidades alcançadas nesse período. Desta forma, também se fecha o caminho financeiro de curto prazo para o consumo e criação de procura. Se com bases tão exíguas, hoje temos a sensação tão marcante de restauração política é, sem dúvida, graças ao papel de sutura simbólica que a nova política desempenhou. Ainda que a etapa histórica da crise política, social e económica esteja longe de estar fechada, podemos considerar com bastante certeza que a janela de oportunidade que se abriu em 2011 está fechada e que a Espanha está a experimentar algo que podemos denominar de restauração política da ordem, o que não significa a sua estabilização a médio prazo.

No entanto, as forças materiais que determinam a crise da classe média têm operado intensamente sobre o Podemos. O processo de institucionalização também significou o acesso a um fluxo de recursos, monetários e de poder, que têm sido usados na construção de um partido burocrático e dessa forma compensar a quase completa desmobilização das suas bases. Isto criou centenas de jovens quadros profissionalizados, que nunca teriam alcançado posições de poder ou escapado da precariedade do mercado de trabalho qualificado espanhol sem a nova política e seus partidos. A estrutura totalmente profissionalizada e clientelar das novas organizações políticas, de que o Podemos é o expoente máximo, decapitou ao mesmo tempo os movimentos de base e tornou a organização ainda mais dependente de posições institucionais.

A direita, por sua vez, sabe bem como explorar o ressentimento gerado pela monopolização da nova política por parte dos jovens sobrequalificados expulsos da reprodução das classes médias. A falta de protagonismo de trabalhadores e precários na nova política, fortalece a ideia de que uma minoria “progressista” usurpou a representação da esquerda. A delirante gestão da compra da vivenda de Pablo Iglésias e Irene Montero, com aquele demencial plebiscito interno sobre tal coisa, exemplifica no imaginário popular esta série de renúncias.

Nos países capitalistas ocidentais, as instituições políticas são extremamente poderosas e podem desenvolver os seus próprios programas com relativa autonomia diante de situações de deslegitimação muito difundidas. Espanha não é exceção. Um partido que renunciou voluntariamente à construção de uma organização de baixo para cima em torno do conflito social, que pudesse compensar essa poderosa dinâmica das instituições parlamentares enviando sinais estratégicos de baixo, não é um adversário das forças institucionais estabelecidas. Isolada das forças sociais e económicas externas, por muito forte e sincera que seja a vontade de “mudar as instituições por dentro”, geralmente é a instituição que muda os recém-chegados, bem-intencionados ou não, convertendo-os em pouco mais do que um viveiro de quadros para a nova elite política, reduzindo-os a uma impotência, que neste caso, tem sido acompanhado por um estridente triunfalismo que não tem correspondência com os resultados objetivos.

Um dos sintomas mais visíveis desse processo de institucionalização foi a passagem da crítica à corrupção sistémica como único eixo de ataque ao governo de Rajoy. A denúncia da corrupção, por si só, ainda que generalizada no sistema político espanhol, anda sempre de mão dada com a ideia da sua regeneração do modelo político mais do que com a sua derrocada. Impele mais para uma mudança de nomes e rostos do que para um desafio sistémico. Uma vez na dinâmica da política regenerativa, o Podemos está longe de estar sozinho, o Ciudadanos agita a mesma bandeira e até o PSOE de Pedro Sanchez também anda por lá. Mesmo os novos rostos do PP parecem muito felizes em reivindicar a sua vontade de regenerar o sistema institucional e partidário.

Tendo perdido quase todo o seu poder de iniciativa, não surpreende que o Podemos tenha como horizonte firmar um acordo de grande alcance com o PSOE para formar governos de coligação para os governos locais, regionais e, eventualmente, nacionais. Na verdade, isso dificilmente pode ser interpretado como outra coisa que não seja uma vontade em permanecer como uma força subalterna do Partido Socialista numa situação em que os partidos políticos ainda estão longe de um cenário de maiorias absolutas. De facto, a cisão de Carmena e Errejón não deixa de ser uma espécie de posto avançado nesse processo inexorável de venda da “nova empresa emergente” ao velho poder monopolista do PSOE. Sob a égide de Carmena, mais do PSOE do que o próprio PSOE, o Más Madrid é fundamentalmente uma vitrina para os “novos políticos” se mostrarem na sua plenitude tecnocrática e gestora aos seus potenciais compradores socialistas.

Não é por acaso que o Más Madrid tenha surgido no apocalipse cortesão que é a nova política em Madrid. A batalha feroz para ganhar o favor de Carmena entre Pablistas e Errejonistas não passou de uma transcrição da batalha para ocupar as melhores posições no aparelho do Podemos, controlar os recursos e trabalhadores, que tem ocupado a tempo inteiro as duas fações “podemistas”, sem que haja muita diferença política entre elas.

É que Madrid tem sido um laboratório em que se reproduzem as dinâmicas pro-neoliberais que caracterizaram a social-democracia durante a crise e, tradicionalmente, o PSOE em Espanha. O governo municipal começou por capitular perante os interesses do BBVA e do ADIF para se tornar promotor da operação Chamartín contra o conteúdo explícito do programa com o qual Carmena chegou a presidente da Câmara, traindo o sentido mais profundo das candidaturas municipalistas.

E continuou na aceitação despreocupada das exigências de austeridade do governo central, aceitando um corte quase total no investimento, mesmo que as contas tenham registado resultados positivos pela primeira vez em muitos anos, imposto pelo governo do PP em nome do artigo 135, que tornou o pagamento da dívida um dever constitucional. Naturalmente, todas estas derrotas, justificadas em nome da realpolitik contra o quixotismo dos setores críticos que pediam uma relação mínima entre a política municipal do Ahora Madrid e os elementos políticos da onda que levou Carmena à Câmara Municipal. A social-democracia europeia renovada.

O próximo ciclo eleitoral revelará esta falta de projeto, a crise estratégica da nova política e a sua implosão organizativa: que ninguém espere uma remobilização de energias e força social em torno de siglas como as do Unidas Podemos, ou sequer nas formulações de centro-esquerda do estilo Más Madrid. Não existe, ao dia de hoje, um projeto de maiorias; na melhor das hipóteses, pequenas elites, que se entronizam sobre a ressaca do ciclo anterior, um ciclo que deixou apenas uma série de marcas eleitorais impotentes no terreno da transformação social, cada vez mais reduzidas para enfrentar a luta eleitoral e subordinadas à hegemonia do PSOE até níveis próximos do ridículo. Isto, sejamos claros, não significa que é indiferente o resultado eleitoral ou em quem votar: significa ser consciente dos limites do partido em que se vota.

No entanto, o mais interessante pode ser feito à escala municipal e autonómica (por exemplo, Madrid en Pie), em forma de candidaturas em rutura com a agonizante decadência da nova/má política, que sejam conscientes dos limites da conjuntura, abandonando a retórica vazia da ilusão eleitoralista e que considerem o uso do terreno eleitoral como algo meramente instrumental, que visa construir uma estratégia baseada na mobilização e na auto-organização de um tecido vivo. É evidente que esta estratégia requer tempos que não se traduzem em curtos prazos, mas que podem ser fundamentais para criar “centros de ligação” que rompam com a inércia autodestrutiva e impotente da “má política”. O tempo da grandiloquência e da mitologia da ilusão acabou, e com ela, todo um tempo político. É a única certeza que existe hoje.

Isidro López, deputado na Assembleia de Madrid e Brais Fernández, membro dos anticapitalistas e da redação do Viento Sur.

Publicado no site: https://www.cuartopoder.>

Tradução de António Rodrigues

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