As políticas neoliberais derrubaram o governo sueco

Por Alex Fuentes, militante de Socialistisk Politik

Dado que, após o resultado das últimas eleições legislativas a 9 de setembro de 2018, nenhum partido obteve a maioria necessária para formar um governo, ocorreram negociações nas quais basicamente dois “blocos” políticos disputavam a opção de governar através de alianças. Após vários meses de negociação, a Social-democracia (S), o Partido Ecologista (Mp) e os partidos burgueses Liberaler e Centro (L e C) surgiram como alternativa aos Conservadores (M), Democratas Cristãos (Kd) e L, que, à última da hora, abandonou o barco “progressista”, a pretexto de marginalizar a extrema direita (Sd). A plataforma do acordo de janeiro de 2019 (Januariavtalet) para a formação do novo governo liderado pelo S foi baseada em 173 pontos programáticos.

V, o partido de esquerda (Vänsterpartiet), viu-se enfrentado com duas opções: ou aceitar que o bloco conservador formasse um governo, abrindo também as portas à extrema direita xenófoba e racista, ou aceitar, com a sua abstenção, a aliança social-democrata com os verdes e os dois partidos burgueses que se autodenominam de “centro”. V estava dividido, boa parte do partido não queria um apoio à aliança encabeçada por S. Mas, finalmente, para evitar a entrada da extrema direita no governo, decidiu-se por não votar contra com a condição explícita de duas “linhas vermelhas”. A primeira foi a rejeição das modificações no LAS, o plano de trabalho “Lei de Proteção ao Emprego”. A segunda medida rejeitada foi a da Marknadshyror (Arrendamento a preços de mercado). O partido de esquerda foi muito claro: se a aliança governamental liderada por S legislasse sobre esses dois pontos programáticos cruzar-se-iam as “linhas vermelhas” e, nesse caso, V retiraria a sua base de apoio do governo.

Durante dois anos, a aliança liderada pelo primeiro-ministro social-democrata Stefan Löfven dedicou-se, no essencial, a aplicar uma receita neoliberal que afetou fundamentalmente o conjunto das atividades do setor público. A pandemia trouxe consigo restrições de tipo económico e o governo implementou uma política de apoio económico às empresas de milhares e milhares de milhões de coroas, mesmo quando as grandes empresas não apresentavam ainda prejuízos, o que levou os gestores das grandes empresas a assumirem ainda mais lucros. Toda a valsa anterior, no sentido de não haver espaço nos orçamentos para responder às necessidades dos trabalhadores, desapareceu da noite para o dia. Este é apenas um exemplo da política levada a cabo durante dois anos por Löfven & Co.

A primeira “linha vermelha” que o governo quis ultrapassar, a pedido explícito da patronal, foi a significativa deterioração da Lei de Proteção ao Emprego, o que conduziu a uma parte dos sindicatos não controlados pela social-democracia (iniciativa dos trabalhadores da Volvo, com sede em Umeå, norte da Suécia) a lançar uma campanha (Budkavlen) contra a medida do governo. O governo pressionou simultaneamente a burocracia da central sindical (LO) para aceitar os ataques aos direitos dos trabalhadores. É raro isto acontecer mas a liderança do LO rejeitou esta abordagem pelo qual a social-democracia aumentou a pressão e finalmente conseguiu fazer com que duas federações do LO e a Confederação Profissional de Empregados (PTK) concordassem, pelas costas do LO, em apoiar a medida da patronal articulada pelo governo. Essa lei estava prestes a materializar-se no parlamento quando o governo tentou saltar a segunda “linha vermelha” imposta por V; ou seja, a liberdade total de preços de arrendamento numa situação em que os proprietários da indústria da construção tinham a faca e o queijo na mão.

Isso conduziu a um movimento de inquilinos promovido por ativistas de esquerda e sociais-democratas de base que, por um ano, levantaram o slogan de Nej till marknadshyror (sem aumento das rendas). V não pôde deixar de apoiar esse movimento, que cresceu até causar severas dores de cabeça à aliança governativa. V pediu reiteradamente ao governo que se abstivesse de tomar esta medida neoliberal porque, caso contrário, V seria forçado a apresentar uma moção de censura ao governo. Em meados de junho, V deu 48 horas ao governo: se ele não retirasse o projeto de lei sobre o aumento dos preços do arrendamento, o governo cairia. E esse dia chegou.

Os nacionalistas e populistas da extrema direita apressaram-se com uma moção de censura própria e, a escassas horas do prazo V tinha dado ao governo, propuseram a sua. Mas isso é uma questão de forma. A verdade é que a esquerda parlamentar demonstrou nesta ocasião a consequência entre o que disse e o que finalmente fez. Importa também sublinhar o facto de que a nova secretária-geral do Vänsterpartiet é Nooshi Dadgostar, uma jovem ativista racializada que lidera o partido há alguns meses. De nada serviram as manobras de última hora para tentar fazer com que V aparecesse como a causa do “caos” e parecesse sair de mão dada com a extrema direita. A social-democracia voltou a demonstrar a sua política de crescente adaptação ao neoliberalismo e a sua consequente viragem à direita, deixando à sua própria sorte os assalariados que afirma representar. Não é de estranhar, portanto, que a maioria dos membros do LO esteja hoje disposta a votar nos populistas de extrema direita que, na prática, atuaram como oposição ao governo que acaba de ser exonerado de suas funções. V, o principal ator desta crise de governo, disse que não abandonaria 3 milhões de inquilinos à sua sorte e que, por isso, decidiu, no dia 21 de junho, derrubar o governo independentemente de quem apoiasse a medida. O que aconteceu é histórico: nunca antes, na história parlamentar sueca, um primeiro-ministro tinha sido derrubado como o social-democrata Estefan Löfven. Daqui a uma semana saber-se-á se o primeiro-ministro propõe uma ronda de negociações para formar um novo governo ou se se propõe a convocar novas eleições, dentro do prazo de três meses estipulado pela constituição. V está disposto a apoiar criticamente um novo governo liderado pela social-democracia, sempre e quando se retire completamente a proposta “marknadshyror”. Mas, independentemente do que se avizinha, V já declarou que o partido nunca irá votar num governo liderado pelos conservadores e menos ainda quando isso signifique que tal governo tenha o apoio da extrema direita.

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