RESPONDER AO TRUMPISMO DEPOIS DE TRUMP

Apesar da derrota de Trump, o autoritarismo neofascista não foi ainda derrotado nos EUA e muito menos no mundo. Bolsonaro no Brasil, Putin na Rússia, Órban na Hungria, o sionismo na Palestina,  Salvini em Itália, o Vox no Estado Espanhol, são só alguns exemplos. Trump sai de cena em Washington mas permanece com os seus clones espalhados pelo mundo. Derrotá-los a todos é a tarefa urgente de cada um e cada uma de nós.

Texto de João Carlos

Depois de mais de uma semana a alegar fraude e a tentar todos os expedientes legais para bloquear a contagem e o anúncio de resultados finais nas eleições norte-americanas, Trump parece ter finalmente reconhecido a sua derrota no dia seguinte ao fracasso da mobilização dos seus apoiantes em Washington. Pelo Twitter, como sempre, insistiu ainda na teoria da eleição que lhe foi roubada por Joe Biden e o Partido Democrata. Nos dias seguintes, voltou a afirmar a sua vitória em que já poucos parecem acreditar. Nesta guerrilha institucional e crescendo de retórica vitimista, o ainda presidente dos Estados Unidos demitiu e nomeou vários cargos de topo para os organismos de defesa e de fiscalização eleitoral numa clara demonstração de que os resultados das eleições mais participadas da história do país não o impediriam de prosseguir a sua política de ocupação de lugares-chave no aparelho de estado, pelos seus mais leais seguidores. Até janeiro Trump estará à solta e ainda com poder institucional suficiente para provocar estragos e tentar garantir a continuidade do trumpismo a partir do novo quadro político. Com mais de 70 milhões de votos, a sua derrota deixa um país em estado de sítio, profundamente dividido e a braços com uma crise social e pandémica sem precedentes.

A vitória de Joe Biden e Kamala Harris é em grande medida devedora da rejeição de uma parte substancial dos e das eleitoras norte-americanas de Trump e do que ele representa. Mais do que a adesão ao projeto dos democratas, muito mais do que a confiança na sua capacidade para lidar com os graves problemas que os EUA enfrentam, foi a oposição a Trump e ao trumpismo que transformou uma parte muito significativa dos novos votantes, das mulheres, dos afro-descendentes e em menor medida, mas também também do voto hispânico, em eleitoras das candidaturas do Partido Democrata.

Nas primárias Bernie Sanders foi o rosto de uma nova geração de militantes e ativistas sociais que acreditaram que a sua nomeação seria possível e que ele seria o melhor candidato para derrotar Trump. Abertamente socialista, Sanders protagonizou longos meses de uma batalha pela sua nomeação que foi travada pelo aparelho democrata e pelo dinheiro injectado nos outros candidatos, entre os quais Biden e Harris. Tal como na sua candidatura em 2016, também em 2020 Sanders foi o rosto do regresso do socialismo como projeto, materializado nas propostas de distribuição de rendimentos, de serviço nacional de saúde gratuito e universal, de taxação dos mais ricos, de igualdade perante a lei para todos os norte-americanos, independentemente da cor da pele, da origem étnica, do género e orientação sexual. Também nas propostas sobre as fronteiras e a legalização de emigrantes, Bernie Sanders foi o oposto das políticas e da retórica de Trump, assumindo o socialismo, ainda que na sua versão social-democrata, como projeto alternativo ao atual estado da política norte-americana.

As campanhas de Sanders permitiram a organização de muitos milhares de pessoas no DSA (Democratic Socialist of America), a sua articulação com movimentos sociais fundamentais como o Black Lives Matter ou ainda o movimento pela habitação e defesa dos moradores face aos despejos. O movimento em torno da nomeação de Sanders potenciou ainda a eleição de representantes destes movimentos em vários parlamentos estaduais e conselhos municipais, assim como de algumas deputadas ao Congresso federal nas eleições de 4 de novembro, como foi o caso de Alexandria Ocasio-Cortez, de Rashida Tlaib e Ilhan Omar. A enorme vaga de entusiasmo e esperança que Bernie Sanders criou embateu com o establishment democrata que juntou forças atrás de Biden e Harris, com o dinheiro de Silicon Valley, o apoio do New York Times, o beneplácito sionista e as políticas burguesas de sempre. Muitas vozes à esquerda criticaram Sanders pelo apoio declarado a Biden e por resistir a criar uma nova organização fora do Partido Democrata que fosse capaz de reposicionar os apoios que as suas propostas congregaram. Esta continua a ser a possibilidade em cima da mesa que exige uma definição da esquerda e das suas organizações como o DSA e outras que se envolveram decisivamente nas campanhas de Bernie. Este continua a ser o deafio decisivo para transformar o entusiasmo e organização em torno da candidatura de Sanders em projeto político  que conte para o futuro da luta de classes nos EUA.

Fora do espectro eleitoral a política consegue ganhar corpo e substância. Desde o Occupy, enorme movimento anti-austeritário  de resposta à recessão de 2008-2009, o Black Lives Matter a partir de 2014, que com o assassinato este ano de George Floyd pela polícia em Minneapolis, organizou a resposta em que 26 milhões de pessoas vieram para a rua e tornaram visível o racismo sistémico, as greves “selvagens” de professores em 2018, ou ainda na resposta à degradação das condições de trabalho, agravada pela pandemia, como as greves na Amazon, nas fábricas de transformação de carne, em hospitais e escolas.

Trump fora da Casa Branca são boas notícias para os trabalhadores e as trabalhadoras americanas e de todo o mundo. É o alívio por ver derrotada a face mais agressiva do capital e da loucura bélica, do negacionismo face às alterações climáticas e à enorme crise ambiental que vivemos, do imperialismo e do racismo mais raivoso. Mas a vitória de Biden-Harris coloca no centro do poder a continuidade das políticas de favorecimento do capital e de acumulação intensiva, da exploração desenfreada dos recursos naturais no mundo, do imperialismo económico e militar nas suas muitas formas. À esquerda e aos movimentos sociais que participaram na sua eleição, com legítimas expectativas de significativas mudanças caberá insistir na sua agenda imediata e no seu programa para uma sociedade decente:

– No fim das polícias e do seu financiamento como forma de garantir um combate efetivo à violênçia racista.

– No acesso universal a um sistema de saúde gratuito e de qualidade.

– Em horários de trabalho e num salário mínimo que permitam que quem trabalha tenha acesso a uma vida digna.

– A taxação das grandes fortunas e das empresas com sede em paraísos fiscais.

– A novas políticas de imigração que abram fronteiras e legalizem todas as pessoas que vivem e trabalham no território dos EUA.

– Acabar com o paradigma energético do combustível fóssil e tornar a economia um motor para a desaceleração do aquecimento global e a proteção das populações mais vulneráveis às alterações climáticas e à violência das suas consequências já sentidas.

– A proteção efetiva de todos os trabalhadores face à propagação do vírus COVID-19, em horários de trabalho reduzidos sem perda de salário, garantindo espaços de trabalho seguros e material de proteção individual. Igual proteção a todas as pessoas que têm de circular nos espaços públicos e deslocarem-se com frequência.

Apesar da derrota de Trump, o autoritarismo neofascista não foi ainda derrotado nos EUA e muito menos no mundo. Bolsonaro no Brasil, Putin na Rússia, Órban na Hungria, o sionismo na Palestina,  Salvini em Itália, o Vox no Estado Espanhol, são só alguns exemplos. O acordo do PSD, do CDS, da IL e do PPM com o Chega para formar o governo regional dos Açores é outro exemplo de como o trumpismo se reproduz a partir da direita tradicional e do sua apetite pelo poder. Trump sai de cena em Washigton mas permanece com os seus clones espalhados pelo mundo. Derrotá-los a todos é a tarefa urgente de cada um e cada uma de nós.

Texto de João Carlos, membro do coletivo toupeira vermelha – IV Internacional

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